Não é só pelos 0,20 centavos, nunca será!

Confesso a vocês que concordei com o Arnaldo Jabor na quinta-feira. Me sentia tão revoltado por voltar pra casa com medo pela guerra que havia no dia, perto da minha casa, num protesto que se mostrava ser só mais um quebra-quebra, que acabei concordando com que ele falara de que eram jovens de classe média que saíram na rua "só" por 20 centavos. E poucos e vândalos, eram mesmo.

Mas aos poucos fui vendo a verdade, a real função da internet. O abuso da polícia que se multiplicava em milhares para defender a cidade, mas não surgia um para acudir aquele pobre homem que foi roubado na Paulista. O abuso não só dos homens que defendiam aquela farda e que faziam só a sua função não compreendendo o que realmente acontecia, mas sim do Estado que não fazia nenhum esforço em entender aquilo que havia, defendendo borrachadas e negando qualquer tipo de negociação pacífica.

Agora me vejo na segunda, vejo 60 mil pessoas na rua em São Paulo e tantas milhares em outras cidades do Brasil, com manifestações de apoio pelo mundo, e pela primeira vez me sinto orgulhoso por alguma coisa nesse país. É um Brasil parado, é um real protesto, algo que eu tomaria coragem em defender. É a real indignação de um povo que pegou o fatídico dia 13 de junho e transformou 0,20 simbólicos centavos em uma luta por direitos meus e seus, e não individuais.

Não há ordem e progresso sem bagunça, e agora na segunda vejo que graças a aquela guerra na Paulista que tantos inocentes foram atingidos por uma PM inconsequente, há uma manifestação desse tamanho. Infelizmente aqui no Brasil, nunca se gostou de protestar, e até é uma razão. É uma bosta mesmo correr risco de levar borrachada na cara por porra nenhuma, mas é a prova de que o Estado não está nem aí pra você, nunca esteve. É disso que o povo se cansou e tomou coragem pra gritar.

Manifestações quietas e pacíficas como tantas não defendem direito algum, é apenas um desejo do Estado de um mundo bonito e utópico que todos saem com as bandeiras no bolso, ordenadamente, e vão trabalhar para servir. Há de sacrificar para ter algo maior. Finalmente se houve coragem em perceber que o direito de um, é o direito de todos. Sem politicagem, sem interesses, sem sindicalismo barato e sem carro de som. Apenas faixas e indignação.

Com quebra-quebra imoral, mas que no final das contas teve-se que fazer isso para chamar a atenção. É o chamado caos que precede o silêncio, para o Estado perceber que isso não era só a voz de poucos. A anarquia só serve para isso, e Alan Moore deve estar orgulhoso da sua máscara vestir tantos rostos. Aquela cena de Londres sendo tomada pelo povo vestido com capas pretas e a máscara característica de V não sai da minha cabeça.

Sei que protestos não irão resolver esses problemas, muitos deles são politicos, e outros são graves que terá que se ter muito tempo para seres resolvidos, são sociais e humanos, uma doença. Não sei sinceramente se sairei na rua pra protestar, talvez irei. Mas por outro lado é muito bom ter essa sensação de que não sei de nada. É bom sentir pela primeira vez nesse pais que milhares finalmente gritam clamando com um tanto de liberdade que antes não tinha e me deixando uma sensação de dúvida, uma sensação de que talvez o velho e antiquado Estado olhe e tenha medo daqueles que confiaram neles; de que tenho direitos que outros defendem também, protestando sem interesse próprio algum e sim por um país mais digno sem programas excusos com a fachada de igualdade, paga para tantos ficarem quietos.

Estou cansado de sentir medo de sair na rua e ser morto. Estou cansado de pagar absurdos pra viver com algum conforto. Estou cansado de ter que embora da onde eu vivia vida inteira por causa da especulação absurda de preços quem tem aqui no Centro de São Paulo. Estou cansado de pagar tanto pra não ver nada revertido em nada de nada. Estou cansado de pagar sindicalistas que só deleitam sobre meus 20 reais descontados do meu holerite. Estou cansado de ver familiares falecidos tão maltratados por serviços públicos que não funcionam, é demora e burocracia, total falta de respeito num momento de tanta dor. Estou cansado de que em prol de uma alienação e merecido esteriótipo, se construam estádios para alegrar o povo que no final, ao longo do ano, receberão 5 mil pessoas. Estou cansado de tantos desmandos e recordes de arrecadação que não mudam em nada.

Provavelmente não é o texto que o tema mereceria, falta muita coisa pra falar; e talvez com o desfecho de tudo isso - se é que haverá tão cedo (e tomara que não tenha) - escreva algo melhor aqui. Mas é algo com o coração, de palavras ditas e empolgadas de um momento histórico como desde muito pequeno não via com os caras pintadas pela impeachment do Collor. E com tanta coisa acontecendo, tantos olhos do mundo grudados em nós, não tem hora melhor de o país parar. De sentir esperança.

O país do tchu tcha e do tchê tchê, se lembrou do que um dia Renato Russo gritava por uma Geração Coca-Cola, e em que a música abaixo dos Titãs tomou as proporções que devia.


Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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