Quanto valem 20 centavos? - por Eliane Brum

Já abordei o assunto dos "20 centavos" aqui na segunda-feira, e de lá até hoje, sexta, muita coisa aconteceu. Até tentei fazer outro texto abordando o assunto, mas crente de que ele sairia politizado, e foi o que aconteceu, o apaguei pois não queria que fosse assim. Não me satisfaz expressar um sentimento de revolta dessa forma fazendo militância, não soa digno.

Foi aí de que me lembrei entre tantas opiniões que li nessa semana - curiosamente também na segunda - que uma me marcou positivamente. Esse foi o da inteligentíssima jornalista, romancista e documentarista Eliane Brum, que tem sua coluna todas as segundas-feiras no site da revista Época. Não é de hoje que acompanho os textos dela, e gostei da seu posicionamento em muitos assuntos que ela abordou. Entretanto, não sou de ficar postando textos alheios aqui, mas acho que para esse é justo, já que ela disse muito do que eu, nessa mistura de ideias que na minha falta de talento para expressá-las saem mais politizadas do que sentimentais.

Confiram o belo texto:

Quanto valem 20 centavos?

O que une os manifestantes de São Paulo é o movimento: o ato literal e simbólico de romper o imobilismo da cidade parada e andar

Eliane Brum

Vinte centavos não são vinte centavos. Vinte centavos tornaram-se ao mesmo tempo estopim e símbolo de um movimento tão grávido de possibilidades que foi reprimido a balas de borracha, a bombas de gás lacrimogêneo e também a golpes de caneta. O que começou com o aumento da passagem do ônibus, se alargou, se metamorfoseou e virou um grito coletivo que tomou a Avenida Paulista e ecoou nas ruas do Brasil. O que há de tão ameaçador nestes 20 centavos, a ponto de fazer com que governos da democracia protagonizem cenas da ditadura, é talvez algo que se acreditava morto por aqui: utopia. A notícia perigosa anunciada pelas ruas, a novidade que o Estado tentou esmagar com os cascos dos cavalos da polícia paulista, é que, enfim, estamos vivos.

A multidão que tomou as ruas de São Paulo, ecoando o que já vinha acontecendo em outras cidades do Brasil, está longe de ser homogênea. Há grupos organizados – e alguns deles acreditam que a depredação é um ato legítimo de defesa, diante da violência sistemática praticada pelo Estado e pelo capital –, há partidos políticos de esquerda e há uma massa de pessoas, a maioria jovens, que aderiram movidas por suas próprias aspirações. O que une “os vários movimentos dentro de um” são os 20 centavos. Mas os 20 centavos deixaram de ser 20 centavos para se tornar expressão de um descontentamento difuso, mas nem por isso menos profundo. Uma decepção com a vida que se vive e um anseio por sentido.

As manifestações de rua são talvez a melhor notícia da democracia, a prova maior de sua vitalidade, mas elas expressam o sentimento de que os políticos que aí estão, os partidos que aí estão, a concepção de mundo, de país e de política que eles representam, já não representam um número crescente de pessoas. Especialmente os jovens pós-internet, mas não só. Contra aquilo que não se entende, mas que ameaça o poder estabelecido, joga-se a polícia. O que se viu na quinta-feira (13/6) foram cenas que lembravam a ditadura militar. Mas as semelhanças acabam aí. A demonstração de força era a expressão de uma fragilidade com a marca deste tempo histórico, do hoje.

Acompanhe o resto aqui, em seu post no seu blog no site da revista Época

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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