Pra que serve o Oscar?

terça-feira, fevereiro 24, 2015


A premiação do Oscar aconteceu nesse último domingo e todo mundo sabe que lá é feita uma apresentação tediosa, chata, sem graça, longa e cheias de piadas sem graça que premia filmes que muitas vezes não fazem jus a isso. O Oscar ainda é cercado de muito glamour e repercussão, mas tal qual no efeito da Fórmula 1, a festa anda perdendo ano a ano audiência e importância, devido principalmente a termos tantas outras premiações que se não repercutem igualmente, primam por uma justiça maior e a uma maior proximidade do público que a assiste.
Dispenso assistir o Oscar justamente pelos fatos que citei no parágrafo anterior, no entanto, neste ano de 2015 tivemos dois pontos bem pertinentes: o discurso de Patrícia Arquette após ser premiada com o Oscar de Atriz Coadjuvante e o prêmio de melhor filme ser dado a Birdman.

Meryl Streep e sua hipocrisia

Patrícia Arquette foi premiada graças ao trabalho com o filme Boyhood, mas ao contrário do pequeno discurso de agradecimento, aos pais, amigos, produção e cachorro, Patrícia subiu ao palco segurando um pedaço de papel - indício esse que discurso vem por aí. E é comum termos atores que aproveitam o espaço e os holofotes que estão todos voltados ao palco para expressar sua indignação, política ou cultural.

O seu discurso foi esse: "A cada mulher que deu à luz cada cidadão e contribuinte desta nação, nós lutamos para os direitos iguais de todos. É hora de haver igualdade salarial de uma vez por todas para todas as mulheres nos Estados Unidos da América."



Tal qual sempre que alguém é premiado e vem acompanhado de um papel, acaba fazendo um discurso atirando pra algo ou alguém. Meryl Streep foi a pessoa da vez que teve a graça de levantar e gritar: "Yes, yes, yes" ao que a Patrícia disse.

Bom, além das palmas merecidas a Patrícia por ter dito algo que quebrou totalmente o gelo das premiações de Hollywood, dando uma dose de realidade naquele mundo que prima pela perfeição. O lance é que na festa do Oscar, e mesmo na festa de aniversário do seu tio, não há espaço para quem quer se divertir e quer falar sério ao mesmo tempo. Alguém na ocasião comenta: "Nossa, como o papo está sério" e logo o assunto se esvai. Quem não passou por isso?

Patrícia com o discurso progressista que tantos outros tiveram coragem de dar em anos anteriores, não só quebrou o paradigma da manada que toma conta das festas e ainda mais com o Oscar, ela mostrou que quis brincar e se divertir, mas também falar sério, para depois sair coberta pelos aplausos. Nada mais justo. E é louvável em sabermos que ainda temos artistas e pessoas que se recusam a ficar sob o efeito da manada, e que tem a atitude de se expressar sem medo de avistarem pessoas que ficam sem graça ao redor após ouvir certas verdades. E assim, descobrimos a hipocrisia de Meryl. Meryl aos gritos exaltados após ouvir o discurso, na minha humilde opinião poderia ter aproveitado o tempo do discurso de seus inúmeros Oscars de dez, vinte anos atrás para quebrar a mesma vidraça que Patrícia atingiu. O lance de ficar quieto para depois concordar é algo estúpido para dizer o mínimo. Mereceu virar meme, e esse momento precisa ficar gravado dessa forma.



Birdman e o reflexo de uma Hollywood falida

Quase todos os indicados a melhor filme: Boyhood, Birdman, A Teoria de Tudo, O Jogo Da Imitação e Whiplash tem em comum o fato de serem filmes independentes, no máximo, com o orçamento de U$$ 30 ou 40 milhões de dólares e com pouco retorno no resultado final, nada atraente para os engravatados.

Sim, o Oscar apesar de toda sua normalidade, ainda deu espaço para uma auto-crítica de seu próprio jeito de fazer filmes. E o que eu noto e o que você nota, o Oscar também "notou" na premiação de seu melhor filme: a falta de criatividade e da coragem. Algo que é recorrente ao caminharmos em direção das salas de cinema e vislumbrarmos filmes que não chamam o mínimo de atenção.

Temos sequências e mais sequências, filmes baseados no livro que você já leu (e que mesmo antes de você comprar já tem seus direitos vendidos), remakes e reboots recorrentes que em muitos casos são verdadeiros caça-níqueis, ou mesmo filmes que reciclam ideias anos depois com outros personagens. Poucos são os filmes ditos realmente originais e autorais, e o que de bom que costuma aparecer ao grande público, tem como sua vitrine o Oscar; salvo isso temos os filmes de super-heróis e o frissom dos remakes e filmes de best-sellers no resto do ano, como por exemplo filmes como Jogos Vorazes e 50 Tons de Cinza que abocanham centenas de salas de cinema no seus respectivos lançamentos. Infelizmente tudo é muito industrial, como tudo que nos cerca.


Obviamente, como na música e literatura, há espaço para todo mundo e para todos os gostos, e ao contrário do que você possa pensar, não sou nada contra ao que tem por aí nos cinemas (que venham mais filmes da Marvel e da DC). Mas quem gosta de ver seu filminho na tela grande, compreende o que significa a "sétima arte" e sente a falta de boas histórias com o destaque que poderia lhe ser dado. O cinema através da sua capacidade de contar histórias, nos diverte e nos proporciona conversas diárias (mesmo no meu caso onde não sei contar filmes bem). O que critico é quando ele não faz nenhum dos dois, nos proporcionando mais desperdício de dinheiro do que satisfação e bons comentários. A indústria pode e deve ser criticada, mas nunca nenhuma delas e principalmente seus telespectadores pode se empinar o nariz como a luz da sabedoria única, como os pseudo-intelectuais que insistem em criticar certo produto somente por causa de outros o criticarem também.

Aliás, e Chespirito? Se a ideia do Oscar é premiar os cinema num todo, porque não premiar Chespirito que não só teve participação ativa na TV mas como no cinema também? Mas talvez essa seja uma sugestão que seja mais de acordo com o Emmy né? =)

O Oscar é um pastel de vento, mas que graças aos dois pontos que tentei citar, foi um pouco mais recheado.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários