Resenha Cinema: Batman Vs Superman - A Origem da Justiça


Eu acredito que cineastas como artistas que são tem por obrigação suscitar discussões, dúvidas e questionamentos, desafiar paradigmas que facilmente produzem o efeito manada e como potencial formador de opinião, colocar a sua visão dentro daquele universo. Sim, antes de qualquer crítica realmente entendo o que Zack Snyder quis fazer com "Batman Vs Superman".

Snyder, como leitor de quadrinhos, quis colocar um ponto de vista bem particular e naturalmente isso não iria agradar todo mundo que tem um cu pra chamar de seu, eu entendo isso, e entendo também de que a DC sabendo disso o procurou para distanciar seus filmes quaisquer de comparações com universo da rival Marvel e mesmo da conveniência que era chamar Christopher Nolan para a direção porque a trilogia Batman dele deu certo pra caralho. 

Filosofias e compreensões...

Os heróis da DC tem uma diferença gritante para aqueles da Marvel e entender isso ajuda a gostar mais de cada personagem. Exceto o Batman e ao contrário dos heróis da Marvel que carregam mais a humanidade consigo, todos os outros heróis da DC tem a alcunha de deuses caminhando sobre a Terra. Ultra-poderosos e onipotentes, eles tem o poder nas mãos de salvar e ao mesmo tempo de extinguir toda a humanidade, tudo depende de uma escolha e talvez exatamente por eles carregarem o "mundo nas costas" seja o que torna os heróis da editora tão dignos de grandeza. Olha, 71% do planeta é coberto por água e o Aquaman tem o pleno controle de tudo isso, então antes de chamar o herói de inútil se questione o que o impede de controlar essa bagaça. Sim, somente o Superman. =D

O Superman é um herói simples se formos observar sua moralidade (por isso também tão contraditório), mas extremamente difícil de adaptar as telonas. É simples colocá-lo nos quadrinhos e nos desenhos animados que carregam as liberdades poéticas pra ele existir do jeito que amamos ou odiamos, porém no cinema isso é completamente diferente. 

É preciso colocar humanidade e abaixar o nível do Superman como extraterrestre que é para nos mostrar que ele com seus erros é capaz de, como os mortais, conquistar os seus acertos. Creio que seja preciso modificar a simplista visão heroica de supostamente ter que salvar a todos para ensiná-lo a conviver com as dúvidas, sobre o que ele precisa fazer realmente e sobre quem merece viver ou não merece. Em outras palavras, o tornando mais crível. Lex Luthor (Jesse Eisenberg) exemplificou bem quando disse que se Deus é onipotente ele não é bom, e se Ele é bom, não é onipotente. Não há como ser plenamente bom nesse mundo e o entendimento que Superman tem disso ao final do filme é fundamental para ele entender o herói que precisa ser.

Bom, muito se discute se o Batman ou o Superman podem matar ou não, e certas cenas de "BvS" deixam subentendido que isso acontece ou poderia acontecer, no filme vemos o Superman chegar em seu limite e o velho Batman cada vez mais violento cansado das ervas daninhas que os vilões são, em certos momentos que isso fica claro, chega a ser assustador pensar no que eles poderiam vir a se tornar. Mas se coloque no lugar deles, você mataria Zod ou não em "Man of Steel"? Você mataria ou não o Coringa no "Cavaleiro das Trevas" na HQ? É nessa visão de Snyder se apoia e o filme é apenas uma visão, os quadrinhos não. É esse mundo de escolhas que os poderes implicam que eles precisam carregar nas costas. Ser um herói também é uma maldição e Diana Prince se afastou cerca de 100 anos do contato humano porque estava cansada da sua crueldade.

Tá igual ou tá igual?
A cena do salvamento na comemoração do Dia dos Mortos simbolizou bem as tantas mortes que o Supinho acabou causando para salvar tantas outras. Para ser um herói de verdade, corajoso, é preciso conviver com a inevitabilidade muitas vezes posta nas situações. Emprestando o Tio Ben um pouco; grandes poderes trazem grandes responsabilidades!

Aqui em BvS o Batman é tomado pela raiva, que carrega consigo as dores que teve com a morte do Robin e vê o Superman como ameaça que pode causar o fim de tudo que ele acredita ter, afinal, não há nada nem ninguém que possa impor algum limite nele. Como confiar cegamente no discernimento de um Deus onipotente que tem a fraqueza naqueles que ama? Ele se sente no direito de que precisa fazer algo.

Aquela péssima sensação de filme "meh"

Mas agora saindo da veia filosófica que TODO filme do Zack Snyder carrega obrigatoriamente e que sempre é muito boa por justamente dar um maior sentido a tuuudo isso, infelizmente achei muito simplista as soluções que ele colocou para justificar o embate entre os dois maiores heróis da Terra. 

Com Lex Luthor personificado muito mais como cientista louco do que um magnata endinheirado que nos acostumamos a ver - algo intrínseco dos quadrinhos e que foi utilizado por ser um personagem que em humor destoa um pouco da seriedade do filme, aos poucos ele vai "armando" para Bruce Wayne se explodir de raiva para querer esmurrar a cara do Clark Kent (aliás esquece isso de identidade secreta, no final do filme todo mundo sabe quem é quem), só que esse motivo me pareceu tão vazio para dois heróis da sua grandeza terem reais motivos para se degladiar, soou como mais uma briga de escola movida pela vingança do que uma real motivação política e moral que deveria ser, 

Aliás o filme como um todo me pareceu uma colcha de retalhos. Apesar de as cenas terem ligação, é por serem rápidas que não tem o desenvolvimento necessário, aquele meio-de-campo saca? Por "increça que parível" em 2h30 de filme não senti em nenhum momento que o filme simplesmente fluía na tela e na minha mente, fui movido muito mais pela curiosidade e pelo senso crítico de saber "como terminava essa porra (não no sentido pejorativo)" e isso não é lá muito bom.  

Como tivemos duas críticas separadamente, vi dois filmes separadamente. O primeiro tem foco no Batman e no Superman e como eles vão chegando até trocar uns sopapos e o segundo a partir da entrada do Apocalipse para justificar o que vem por aí no futuro da Warner/DC. 

Não vou discordar que as duas partes podem sim fazer parte do mesmo filme, no entanto, a primeira parte focada na luta entre os dois é resolvida rapidamente em detrimento da segunda. Por mais que como dia e noite que os dois são e possam se rivalizar por isso, penso que eles como a duração do dia, se complementam como heróis e até por isso eles tem que unir forças. Mas aí eu me perguntei porque toda aquela rixa que se criou durante duas horas se resolveu tão rapidamente e tocando naquele velho assunto dos assassinatos dos pais. Ok que o Batman é eternamente atormentado por isso e por essa causa e circunstância que ele se tornou o Batman, só que precisam dizer aos roteiristas que não é obrigatório colocar a morte dos dois em todo e qualquer filme do Batman, bastava deixar subentendido. É como a Marvel e o Tio Ben que não aguenta mais ser morto nos filmes do teioso. 

Agora falando da parte do Apocalipse em especial, essa parte só existe porque BvS tinha que ter obrigatoriamente uma ligação com a Liga de Justiça e para provocar umas explosões e efeitos que só o Zack Snyder sabe fazer. O plano maléfico do Lex pra liquidar o Supinho de uma vez por todas resulta numa batalha que tornou o conflito que dá nome ao filme inexistente, o transformando em uma Liga 0.5 a partir da Mulher Maravilha. E ainda batendo nessa tecla, a cena do laptop da LexCorp que mostra pequenos vídeos de segurança dos outros potenciais membros foi totalmente desnecessária, saí do cinema com a sensação esquisita de que foi uma tentativa desesperada de a DC enfiar goela abaixo a ligação de seu universo nos relembrando do dever de ver o filme da Liga da Justiça do que algo que coexistisse necessariamente com o filme. Cara, a Marvel faz isso tão bem e sem forçar...

E como o povão se sai?

E ah, se Ben Affleck deu um bom Batman? Sim, ele teve sua redenção. Affleck não rouba a cena até porque o protagonismo não é só dele e o roteiro não foi escrito assim, no entanto, além de termos um Batman monstrão, Affleck deu vida a um Batman cheio de cicatrizes dos percalços da vida, realmente assustador e imponente na primeira vista, brutal nas lutas como na serie de games Arkham! 

Gal Gadot como Mulher Maravilha? Ah que delícia ver ela... Linda e misteriosa é o tipo de mulher poderosa que finalmente dá o tipo de protagonismo que as mulheres ainda não tem no mundo cinematográfico dos heróis, tanto que ela é a única que dá conta do Apocalipse de verdade e tem mais consciência plena de seus poderes do que o próprio Superman. Seu filme solo promete, ainda mais por ter sido anunciado que será ambientado na I Guerra Mundial, uma guerra que fora mal retratada nos cinemas e que foi tão sangrenta quanto a II.

Já o Henry Cavill como Superman foi ok de novo como foi em "Man of Steel". Temos Christopher Reeve como Superman definitivo e vai ser muito difícil alguém surgir pra apagar a nossa imagem que temos dele, mas Cavill dá um bom Superman e temos o herói no filme como o personagem que dá aquele filtro de compreensão sobre o espectador, só que o ator não é carismático o suficiente. Bom, talvez o Superman não o seja, mas... é consenso com meus botões de que essa questão vai me cutucar em qualquer filme que ele aparecer.

E Zack Snyder é um bom diretor e Watchmen é um dos meus filmes prediletos, o diretor é realmente gente como a gente e até é mais fanboy que nós, mas é isso que me preocupa. As câmeras lentas dele dando aquele tom épico e exageradamente dramático que pareceu em BvS fazer-se obrigatório a todo momento, chega uma hora que... cansa, se torna forçado. Ele sabe como tornar cenas realmente lindas de se ver, mas em outros momentos ele esquece que tem que se ater ao cuidado do roteiro. Snyder é um diretor corajoso em como fã, impor sua visão particular nos filmes sem muito se importar se A ou B vão amar - como foi aqui - e seu modo de dirigir e pensar estão confirmados no filme da Liga da Justiça, então acho bom ele modificar um pouco essa visão deixando a sensação obrigatória da seriedade um pouco de escanteio pois temos na série do Flash um ótimo exemplo de fidelidade mesclada com o tom descompromissado dos quadrinhos, sem parecer tosco. 

É bom, mas não é o que pintou ser

Confesso que a minha sensação ao sair do cinema foi a de confusão, sinceramente não sabia dizer se o BvS foi bom e ruim, e até mesmo nessa resenha tendi a apontar qualidades e defeitos que podem parecer meio contraditórios para com quem está lendo; na verdade, acho injusto dizer que o filme é ruim só por causa disso. É preciso analisa-lo. E acho bom que ele nos desafie a pensar e é muito bom que ele provoque discussões com os fãs de cada herói sobre suas decisões tomadas e porque eles deveriam fazer isso ou aquilo, é tudo uma questão de visão. Porém, nessa bagunça há um consenso, fazia muito tempo que não se via um filme tão polarizado, nas tela e fora dela, e que causasse tantas emoções como BvS causou, e na verdade o acho muito bom olhando por esse lado. Mas se eu fosse dar uma nota, seria 7. Bom na fantasia, bom na bateria, mas destoante na evolução. Muitas partes do filme me pareceram desnecessárias de existir e acho que tranquilamente poderia se cortar meia hora de filme brincando.

Não saiu Liga da Justiça ainda e temos dois Vingadores e uma Guerra Civil por vir, mas como reunião que é BvS, eu acabei tendo no primeiro Vingadores uma sensação mais de regozijo do que em BvS e digo isso com um aperto no coração, até porque eu e você mereciamos um filme melhor pois epicidade que o trailer pintou, não condiz com o filme e isso é algo que me causou uma frustração enorme.

Bom, percebeu que em toda resenha tive cuidado em reiterar o "eu" e o "me"? Então Batman Vs Superman é justamente isso, é sua interpretação e você muito bem pode achar o filme nota 10 ao contrário de mim. Esse que é o legal da brincadeira.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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