Resenha Filme: Clube de Compras Dallas


Hoje dia 23 foi liberado pela Câmara a posse, uso e prescrição da fosfoetanolamina sintética, mais conhecida como a "pílula do câncer", independentemente da regulação prévia da Anvisa. Decisão fortemente criticada por oncologistas que veem na liberação da substância uma pressão mais pública do que técnica, o fato de ela não ter passado por todo o longo e minucioso processo de testes em humanos como qualquer outra droga, abre o precedente perigoso do "efeito placebo", que pode fazer pacientes abdicarem do (penoso) tratamento tradicional tornando-se um risco aos mesmos.

A fosfoetanolamina é uma substância que imita um composto que existe no organismo, identificando as células cancerosas e permitindo que o sistema imunológico as reconheça e as remova. Pesquisas sobre o medicamento vêm sendo feitas pelo Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (USP) há cerca de 20 anos, contudo sem a regulamentação da Anvisa impedindo qualquer tipo prescrição a não ser a própria liberdade do paciente de buscar um tratamento alternativo por um "meio ilegal".

Temos de um lado o desespero por pessoas que abruptamente veem suas vidas sem uma perspectiva e que no remédio tem uma última esperança, e de outro a medicina que funciona na base secular do teste e da comprovação com o objetivo de acabar com qualquer dúvida em quem procura tratamento. Então o que vale mais, a liberdade sobre seu próprio corpo ou as regras da ciência?

Temos o direito de ir e vir garantido por lei, mas se não houver algum tipo de regulamentação, convenhamos que isso que conhecemos de sociedade ou de vida praticamente não funciona. Imagina você ter uma grave doença e tomar chá de boldo da vovó achando que isso vá lhe curar a curto prazo? Essa tática do chute se chama efeito placebo e é exatamente essa a missão da medicina como ciência, acabar com qualquer dúvida. Somos donos de nosso corpo mas menos que pensamos, afinal, você não conserta seu braço quebrado ou confia cegamente no Google pra tratar sua cirrose. Mas agora vamos tender pro outro lado, para o puro desespero e descrença na própria medicina que através de seus laboratórios - que provavelmente tenham uma máfia que escolham o que deve-se curar e o que não deve-se. Sabemos muito bem que esse mundão que vivemos é regido pelo dinheiro e nem sempre as pessoas que jugamos ter boas intenções tem realmente essas boas intenções, então quem garante que a fosfoetanolamina não funciona mesmo? Aí fala mais alto a questão da liberdade e do até então inexistente bom senso que o governo deveria ter pressionando os laboratórios a estudar essas pessoas que julgam terem sido curadas pela substância, pois testes em humanos já foram feitos e pelos próprios pacientes que foram as cobaias, não?

Isso é mais ou menos o que se discute no filme baseado na história real de Ron Woodroof (Matthew McConaughey). O desregrado eletricista viciado em drogas, sexo e apostas após um acidente de trabalho se descobriu portador do vírus HIV, e pior, em um estágio avançado da doença que lhe dá apenas 30 dias de vida. A época era 1985 e o preconceito com a doença era altamente grande na sociedade, assim como a falta de informação que tinha a doença rotulada por "ser de gay" e exatamente por isso o preconceituoso Ron se via relutante já que ele acredita que héteros como ele eram supostamente "imunes" negando qualquer tipo de tratamento que lhe é oferecido.

Sozinho e envolto por uma contagem regressiva angustiante, Woodroof também não apresenta grandes melhoras com o AZT (única droga disponibilizada na época) e pronto para se entregar de vez a doença, ele resolve partir para tratamentos alternativos não-tóxicos, legais ou ilegais. Vendo sua vida ser prolongada e sua melhora da sua saúde muito pela sua decisão em abandonar o AZT, é motivado a proporcionar o acesso a essas medicações a outros portadores através do Clube de Compras Dallas, assim, sem querer, se tornando um ativista da causa.

Assim como questão da fosfoetanolamina aqui no Brasil, o filme aborda principalmente as nuances das decisões de Woodroof em "desafiar" a medicina que só via o AZT como penoso tratamento mas que por causa da burocracia tanto de laboratórios como da justiça, impedia desesperados pacientes de ter um outro tipo de tratamento que não fosse esperar sua própria morte. E o filme bate forte na questão do governo se julgar o dono da razão ao começar a lutar contra os remédios importados por Woodroof ao invés de juntamente com os pacientes do Clube de Compras procurar uma melhor solução para tratamento, ou em outras palavras, cuidar melhor de seu povo chegando a um denominador comum, preferindo-se percorrer a linha do rigor da lei ao invés de enxergar o porque aquele movimento estava acontecendo. Mas ao longo do filme vemos que o conluio dos interesses escusos da indústria farmacêutica juntamente com o governo que a todo custo procuram impedir na justiça que pacientes procurem tratamentos alternativos buscando uma qualidade de vida melhor, é sempre mais implacável, mas não invencível na luta pela vida.

Hoje McConaughey é bem mais conhecido do público como sendo um excelente ator dramático, mas até "Clube de Compras Dallas" ele era apenas um mero ator de comédias românticas bonitão. Porém neste filme que lhe rendeu o merecido Oscar de 2014 vencendo Leonardo DiCaprio, o ator foi formidável, não só pela sua total entrega ao papel em retratar um soropositivo perdendo mais de 22 quilos, mas também pela desconstrução do rude Ron Woodroof que ao longo do filme nos conquista plenamente ao, na jornada de uma luta pessoal contra a doença, acabar se tornando um herói florescido de uma alma totalmente desprezível que vemos no começo do filme.

Já a "liberdade poética" da história real de Woodroof é vivida pelo travesti Rayon (Jared Leto) que tem a missão de introduzir na vida Ron a comunidade gay (a mais afetada pelo HIV na época) e nos apresenta também diversos temas daquela parte da sociedade altamente marginalizada e que sofre até hoje com esse preconceito. O irreconhecível e magérrimo Jared Leto nos entrega uma atuação que chega a ser emocionante e extremamente cativante ao dar vida a um sofrido personagem que na sua inegável irreverência, motiva e muda a perspectiva de Woodroof como pessoa e dá ao filme o tom descontraído por lidar com um assunto tão sério. Até confesso que após ver esse filme eu tive a sensação da real dimensão do talento de Jared como ator e é reconfortante pensar no que ele pode fazer como Coringa no vindouro "Esquadrão Suicida". =)

O grande mérito de "Clube de Compras Dallas" é negar o tom documental que uma história real poderia ter focando numa suposta "luta" de Woodroof contra a doença e contra a justiça, mas sim através de uma edição esperta realizada na direção de Jean-Marc Vallée optar por simplesmente se basear na história de Ron Woodroof aproveitando para abordar o preconceito sofrido pelos soropositivos como ele, que ao longo do filme é simplesmente abandonado pelos seus amigos de beberrões e homofóbicos como ele que chamam Woodroof de viado e se negam a apertar a sua mão. Essa intolerância é a verdadeira doença.

Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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