Resenha Filme: Her (Ela)

terça-feira, março 15, 2016


Particularmente sou uma pessoa reservada, mas na minha adolescência eu era uma pessoa bem mais tímida e difícil de se relacionar, portanto o meio natural que mais me utilizava para interagir com diferentes pessoas sem precisar "dar a minha cara a tapa" era a internet. Lembram dos finados MSN e Orkut? Aposto de que você os utilizava com os mesmos fins que eu e achava pessoas que negavam ter esse contato digital como pessoas chatas e caretas.

Porém com o passar dos anos vi que essas pessoas amigas em sua maioria não permanecem, claro, todo mundo cresceu e criou outros círculos, provavelmente tendo a amizade com você reduzida a uma mera contagem no Facebook. Creio que a fase adulta apresenta outros parâmetros e te força a trilhar outros caminhos na forma de ser. Hoje em dia sou uma pessoa bem mais extrovertida e simples, e pessoalmente prefiro muito mais uma mesa de bar e olhar no olho de quem estou conversando, dando mais possibilidade a uma boa e verdadeira amizade florescer do que me esforçar pra ser compreendido corretamente usando smiles em chats. Não tenho mais paciência pra tal e nem pra pessoas que moram longe.

Traçando esse paralelo, me imagino se não tivesse conseguido lidar com meus problemas e tivesse ido para o outro caminho, me tornando uma pessoa muito mais introvertida e fechada em mim mesmo - algo recorrente na sociedade em que vivemos. Qual seria meu escape de realidade? A internet, ou o Tinder, como quiser.

É consenso de que o Google cuida melhor das nossas vidas do que nós mesmos. Ele nos acorda, nos diz como está o clima da cidade pra não esquecermos do guarda-chuva, organiza nossa música, agenda nossas tarefas diárias, nos lembra dos aniversários de quem gostamos, nos diz o melhor caminho pra ir pra casa... enfim, acha tudo que precisamos na nossa vida (menos o controle remoto). Dizem que ele só falta falar. Ops, peraí. E a Cortana?!

Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) sempre teve dificuldades de expressar o que realmente sente e muito por isso seu casamento com Catherine (Rooney Mara) terminou. Naturalmente desiludido com o fim do casamento com alguém que ele tinha como amiga de infância e inseguro em relação a ele próprio, atualmente Theodore vive uma vida solitária e reclusa entre os jogos de vídeo-game e seu trabalho, ironicamente escrevendo cartas de amor para pessoas com dificuldades em expressar os seus próprios sentimentos.

Sendo introvertido e solitário como é, Theodore vê apenas a tecnologia como a sua aliada no dia-a-dia na tentativa de fazer novos contatos e encontrar, quem sabe, uma mulher que ele possa se relacionar, possivelmente tão solitária como ele. Mas infeliz pelos insucessos nos encontros a cega que ele teve com a personagem de Olivia Wilde e pelos interações via bate-papo com a "gatinha sexy" (Kristen Wilg), ao descobrir nas suas andanças solitárias uma propaganda publicitária sobre um novo sistema operacional com inteligência artificial que prometia uma nova interação com seu usuário, bota a prova sua curiosidade adquirindo o sistema pra ver qualé que é dessa "evolução do Google".

A questão aqui é que essa nova OS promete ao usuário uma interação mais pessoal, permitindo que o mesmo evolua e se adapte conforme interage com o usuário. Mais ou menos o que o Google Now faz, não sendo tão amplo, claro. Decidindo que a OS teria uma personalidade feminina, Theodore passa a conhecer Samantha (Scarlett Johansson) e a medida que os dois vão se conhecendo, e logo Samantha se moldando a Theodore, os dois iniciam um estranho e incrível relacionamento trazendo sentimentos novos e conflitantes aos dois. E é aí que está a cerne da questão que o filme aborda.

A medida em que Theodore e Samantha vem experimentando diferentes e conflitantes sentimentos que naturalmente cercam uma relação afetiva, a medida que Samantha vem experimentando o sentimento de ciúmes adquiridos por ela sobre Amy (Amy Adams), a melhor amiga de Theodore, ela também começa a se questionar se ela aprendeu a amar Theodore ou se isso se estava embutido em seu sistema, mas o mais pertinente, se sentir esse amor que ela aprendeu a sentir era realmente necessário.

Sutilmente o longa aborda de forma profunda as relações amorosas e como nos sentimos frágeis e vulneráveis ao final delas, preferindo muitas vezes abrir mão de nós mesmos ao investir em relacionamentos que notoriamente não vão dar em nada, ao invés de aproveitarmos a liberdade para investir em nós mesmos e em como aproveitar melhor nossa própria companhia. E todos que terminaram um namoro recentemente ou vivenciaram isso, como eu, irão reconhecer em Theodore uma identificação instantânea.

No caso do filme, Samantha é uma OS e Theodore naturalmente sabe disso, e que como Amy alerta em certo momento, ele também sabe que no fundo que essa "relação" não vai dar em nada; mas ao mesmo tempo em que Samantha preenche algo que Theodore a muito tempo não sentia, involuntariamente cega Theodore do detalhe que a própria OS tem a função primária de aprender a suprir as necessidades de seu usuário, no caso o amor, e evoluir de acordo com as experiências que vai interagindo. Portanto, não demora muito para Samantha perceber que o amor que ela sente transcende Theodore e qualquer uma das 61 pessoas que ela passa a amar mas que sobretudo é um sentimento que deve servir primariamente a própria evolução do seu ser, algo que Theodore também deve aprender para seu bem.

Estrelado por Joaquin Phoenix (que interagindo apenas com uma voz o tempo todo nos entrega uma atuação brilhante) e dirigido por Spike Jonze, "Ela" merecidamente ganhou o Oscar de 2014 como melhor roteiro original ao tratar desse paralelo entre a tecnologia e o relacionamento humano, mas principalmente como essa tecnologia que aproxima tanto as pessoas tomando conta de nossas vidas ao mesmo tempo em que também vai nos afastando dessas mesmas pessoas, tornando-as potencialmente vazias através das nossas inseguranças criadas pelos nossos relacionamentos.

Será mesmo que precisamos da internet realmente pra tudo? "Ela" me fez questionar muitas coisas e outras que observo, de como o smartphone vem tomando contas das mesas de bares, nos tornando distraídos e dispersos para muitas atividades da vida. Parece até besteira, mas é só observar. Obviamente o Google não chegou ao ponto de conversar com a gente, mas com meus botões imagino que pra isso talvez seja uma questão de tempo, afinal, dedicamos nossa existência a aprimorar cada vez mais o nosso conforto e bem-estar, correto?

Em uma cidade tecnológica e cinzenta de pessoas tipicamente vestidas como nos anos setenta sob decorações hipsters, de cara se percebe como tudo aqui é sem identidade, como a vida de Theodore e a de tantos outros que acabam por terem incertezas preenchidas por alguém que nem existe. Onde ficção e realidade se misturam, "Ela" traz à tona na nossa imaginação:

E se o Google ou o Windows realmente falassem? E se além de saber nosso caminho pra ir pra casa e das nossas viagens, soubessem o caminho de nosso coração?

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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