Resenha Livro: Escuridão Total Sem Estrelas (Stephen King)

domingo, março 20, 2016


Através de quatro contos, perturbadores e inquietantes, Stephen King revive perguntas em nossa mente e levanta outras questões morais. Em narrativas fortes, ele nos abre os olhos para o terror de cada dia e principalmente o terror de cada um. Na dificuldade, ninguém sabe o que é realmente pode ser; e se é daí o que pode se florescer de melhor, igualmente, pode florescer o que há de pior.

É basicamente do que se trata o conto 1922 (e o que mais gostei), que inaugura o livro. Ambientado no começo do século XX nos bucólicos campos do interior dos EUA, o conto não só deixa claro as duras penas culturais da época que cobravam tanto das mulheres como dos homens, mas principalmente conta como a ganância e orgulho podem levar uma pessoa através do caminho da escuridão. 

Tendo divergências em relação as terras aonde moram por causa de uma proposta financeira indecorosa, enquanto a mulher quer sair dali para o mundo para sentir a brisa e a agitação da cidade, o seu marido, acostumado a vida no campo, simplesmente quer ficar ali aonde a vida está de acordo, colhendo estação após estação as plantações que as suas terras lhe proporcionam. No meio disto está seu filho, cujo único propósito é manter suas amizades e ficar próximo da garota que ama, filha pródiga da família da fazenda vizinha. Contudo, a vida tomará outro caminho totalmente inesperado quando o marido convence seu filho, seduzindo-o pelas suas vontades primordiais, a uma solução que dará um fim a tudo isso.

Em Gigante no Volante, num terror surpreendentemente ágil pelo seu teor carregado e psicológico, somos transportados a uma história de violência, paranoia e vingança, deixando claro como não há limite para a brutalidade humana e que essa está aonde menos esperamos. 

Uma famosa escritora é convidada para dar uma palestra em um lugar desconhecido até então para ela. Até aí tudo bem. Só que o cenário muda cruelmente quando no meio do caminho parada em um posto, um homem oferece ajuda para trocar o estepe de seu carro. Estuprada e tomada pela natural paranoia e sede de vingança, ela usa os personagens de seus livros para chegar até aonde quer e os caminhos sórdidos que ela vai percorrendo a levam para uma surpreendente revelação.

Usando de experiências pessoais para escrever Extensão Justa, Stephen King sempre passava em uma área próxima ao aeroporto e via vendedores vendendo qualquer tipo de produtos que se poderia imaginar. Um de seus prediletos era O Cara da Bola de Golfe, que percorria os campos de (dã) golfe para recolher as bolas perdidas e revendê-las a um preço... justo. 

Tendo toques sobrenaturais, o conto é bastante curto tão quanto traz repulsa ao questionamento que rapidamente nos traz, sendo assim, não se tornando necessário dar mais detalhes da trama. E o questionamento que ele nos traz é o seguinte: o que é realmente justo? Mas o fundamental, o que você faria no lugar do personagem se alguém lhe oferecesse a mesma proposta? Por mais ruim que a pessoa lhe fosse para você, o que faz essa decisão ser justa? Porque ela mereceria tal desejo?! Bom, nesses momentos de ebulição política não duvido nada de que a Dilma ou o Lula fossem envolvidos nesta situação, mas volto à pergunta e ao cerne do conto, a inveja pode ser encaixada entre a justiça e o merecimento? 

Um Bom Casamento é o quarto e último conto e é de todos, o que mais se aproxima da realidade por ser algo que ESTÁ acontecendo, não algo que PODE acontecer. Trabalhando com a semente da dúvida, Stephen King através dessa história nos pergunta o quanto realmente podemos julgar conhecer alguém. O amor sobreviveu e dia após dia renasce no casal protagonista, mas quando num "tropeção" a esposa acha sem querer evidências sobre um passado sombrio daquele homem que doce que tanto ama, passamos ao seguinte questionamento junto com ela: será capaz de o amor sobreviver a tal revelação?

Há inúmeros tipos de terror e diversos escritores, sendo Stephen King o mais notável deles, se tornaram famosos por destrinchar o gênero ávidamente pelos olhos de cada fã e leitor, até mesmo provocando pesadelos aos mais imaginativos. No entanto, no livro de contos "Escuridão Total Sem Estrelas" King se aventura na forma de terror mais aterrorizante que existe, e que escondida, toma vida na ausência da luz que o titulo deixa claro; e esse terror não é o sobrenatural, esse terror se chama nós. Em cada sentimento, em cada prazer, em cada gesto de morbidez, em cada ato; no lado mais sombrio da alma humana. Onde tomada, passa ao terreno onde não existe nada, nem piedade e nem justiça; mas que ao mesmo tempo é atormentada pela consciência.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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