Resenha Série: Master of None (1ª Temporada)

quarta-feira, março 09, 2016


"Com 27 anos penso que não sou obrigado a fazer nada e minhas vontades devem serem realizadas de acordo a mim, e não por imposição social - por mais que ela seja real e por muitas vezes, necessária. Penso que o que fiz e o que tenho, não significa necessariamente ser bem sucedido ou não, mas que sim, fiz ou deixei de fazer o que no momento me fez bem. Penso que sou o que posso ser e tenho o que me faz bem, e ter feito ou conquistado algo, nunca irá de encontro com o meu e seu subjetivo bem-estar."

Resolvi começar a resenha sobre "Master of None" com esse comentário que eu fiz num artigo que falava sobre os conflitos das ansiosas pessoas entre 25 e 30 anos que pressionadas pelo rito social sempre receiam ver o tempo se esvair das suas mãos, até porque sou uma delas, e justamente por isso talvez essa produção original da Netflix tenha me fisgado tanto.

A série inteira aborda em pequenos episódios os conflitos e as esquisitices da nossa vida adulta, mas especificamente no episódio final simplesmente chamado de "Finale" vemos essa discussão ser mais abordada.

Quando eu estava quase me formando no ensino médio, a seguinte questão pipocava direto na minha mente: "o que vou fazer agora?". Só de olhar pro lado e as ver garotas cdf que sentavam na frente supostamente preparadas pra vida e eu sentado lá no fundo da sala sem nem saber o que era Física direito, me fazia ter dúvidas sobre se eu conseguiria me dar bem em uma faculdade ou algo parecido.

Saímos da escola e perdemos a rotina de vadiagem, logo passamos do sentimento de ódio a escola a pura nostalgia quando adentramos a sonhada vida adulta de estudo e trabalho e vemos que a responsabilidade não é flor que se cheire. É fato de que cada vez mais jovens, mesmo trabalhando, preferem ficar no conforto da casa de seus pais. Mas falando por mim, penso muito que isso é questão de convivência e personalidade, tanto de "dar a cara pra bater" ou de ser aquele cara difícil de lidar. Sai de casa a dois anos meio que forçado por diversos motivos e não me arrependo disso. Sair de casa pra bater as asas sem ninguém atrapalhar é o curso natural das coisas. Aliás, um episódio que que se relaciona diretamente a isso é "Parents", que chega a ser emocionante no que toca ao ponto de dar o real valor a quem nos criou, por mais desinteressantes que eles sejam.

Cá entre nós, o vislumbre da perda de rotina é sempre chocante e há uma pressão natural dentro de nós em nos perguntar sobre o depois, há exceções (que creio que surgem mais quando a vida força uma "porralouquice" maior), mas em geral o ser humano é sistemático. Detestamos surpresas e tememos demais o que não sabemos, justamente por esse medo que deixamos de "aproveitar o que há de melhor da vida", mas o que é necessariamente "esse melhor"?

Quando o personagem Dev (Aziz Ansari) resolve usar a máquina de fazer massa que ganhou de Rachel (Noel Wells) e com dúvidas do que fazer da vida simplesmente resolve tocar o foda-se e ir pra Itália fazer... massa, traduz um pouco o que há em cada um de nós, a dúvida entre viver e "viver". Volto a pergunta: "o que é necessariamente melhor?". Se Dev nem tem ideia, também não temos. Mas ao ver Rachel dizer que não queria viver uma vida de arrependimentos e ir visitar lugares quando ainda tinha chance, pensamos de novo nessa questão. E "Finale" aborda a suposta certeza que temos ao estarmos com alguém de forma brilhante e sincera, não é só a questão de encarar os problemas naturais a qualquer relacionamento mostrado "Mornings", mas sim em relação a aquela sensação esquisita e insistentemente presente na própria vida de eterno engano, de como devemos aproveitarmos o tempo que temos da forma mais intensa possível e discutida a exaustão na internet.

Em relação a esse assunto falei de um episódio em particular, mas dentre todos os outros escolhi justamente esse pra dar a vocês a noção do peso que a série teve pra mim, aliás, poucas séries conseguem conversar desse tema e muitos outros com o espectador com a mais absurda naturalidade e bom humor.

Do sempre complicado amor mostrado do ponto de vista dos encontros em "Hot Ticket" até o lance sério entre Dev e Rachel (o casal mais fofo do mundo) que começa em "Nashville", "Master of None" consegue abordar de forma muito inteligente e sutil assuntos como casamento e velhice até os mais sérios, como o racismo enraizado na sociedade como estereotipização dos indianos em "Indians on TV" e historicamente das mulheres em "Ladies and Gentleman", mas sem nunca tomar a frente do foco cômico da série e de elenco extremamente étnico por sinal!

Realizando um ótimo trabalho em envolver assuntos tão diferentes entre si e captar situações absurdas comumente contadas às gargalhadas numa roda de amigos, a série idealizada por Aziz Ansari e por Alan Yang é tão boa porque consegue problematizar, criticar e ironizar as situações vividas por muita gente ao mesmo tempo em que faz aquele meio campo pra cada um de nós pegar e abraçar a série como o Arnold (Eric Wareheim) abraça a foca robô Paro em "Parents". E o que dizer das discussões entre Dev e seu amigão Arnold? Eles conseguiram desmembrar a letra de "8 Mile" do Eminem em poucos segundos e filosofaram sobre a vontade de querer comer algo bom e não saber exatamente o quê, a situação é hilária! =D

Uma agradável surpresa da grade tomada por "Demolidor", "Orange Is The New Black" e "House of Cards", "Master of None" é uma série de comedia que não te fará dar gargalhadas à lá "The Big Bang Theory", mas é uma produção rara que te trará sorrisos amarelos e por muitas vezes brancos, experimentando a dualidade entre a felicidade e a reflexão nem sempre saborosa em praticamente todos os episódios que deixam o tragicômico mais identificável. Trazendo a tecnologia atual pra bem perto onde tem-se aplicativos pra tudo, Dev lida com as ironias da vida adulta lotada de situações embaraçosas; ensinando um pouco mais da forma como devemos levar a vida ao mesmo tempo que nos faz discutir assuntos que por muitas vezes passam desapercebidos a nós.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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