As redes são sociais, o povo não

domingo, maio 01, 2016


Numa época em que vivo uma desilusão enorme política, uma instabilidade democrática sem precedentes e teremos uma presidente sendo deposta por motivos escusos, muitos se questionam se nesse país da "feijoada e do nada acontece" este é o limite da democracia e se ela deve ser alterada ou mesmo se outro regime deveria entrar em seu lugar. Parlamentarismo, Ditadura e até a Monarquia (Gzuiz). Bom, até concordo que estamos vivendo um belo teste sobre a democracia principalmente na cabeça das pessoas que se engalfinham todo dia pelo direito de estarem certas, tipo o azul x vermelho, petralha x coxinha. Encheu o saco né? A democracia em si é também um sistema político que se estende a cada um de nós e se observarmos bem, isso se perde dia após dia.

Poderia dar inúmeros exemplos, mas fugindo um pouco do âmbito político (ahá, pensou que iria falar disso né?) e me concentrando um pouco mais no princípio democrático. Desde os estádios que se elitizam cada vez mais pelos seus preços praticados, afastando pessoas mais pobres e dando mais importância a torcedores de iPhone 6 (mas ainda assim dando espaço as violentas torcidas organizadas); até aos shows, que tem uma área VIP segregando o público e impossibilitando gente como eu a estar realmente perto de meu ídolo (saca aquilo de chegar horas e até dias antes pra ver o suor no rosto do cara? Esqueça), essa tal "camarotização" social que vivemos só transforma a vida em um shopping center que monetiza a paixão e multiplica os selfies de quem está mais preocupado em esfregar na cara alheia onde está e o que está comendo, nos afastando cada vez mais do que podemos chamar de igualdade até na comida chique que um dia podemos comer.

Claro, cada um tem o espaço que quiser e julga merecer ter. Se eu tenho dinheiro, ele muito bem pode ser usado para o meu bem estar e se eu quero conforto, pago por ele. Contudo, o valor que ele tem sobre as pessoas assume o valor que elas deveriam ter e isso a gente está com dor nos olhos de ver na televisão ou mesmo no trabalho.

Eu creio que o bem social em comum, um bem público, deve ser realmente para todos e não é o que sentimos. É uma coisa morar num bairro periférico e outra num bairro como o Itaim, e o protesto dos moradores de Higienópolis contra a inauguração do metrô demonstra claramente essa separação que a sociedade sofreu pelas suas roupas e ideais. Em outras palavras, duvido você ir em um bairro de classe alta e se sentir em outro mundo como se aquilo não fosse pra você.

É complexo, mas também o Governo que diz governar para todos e nada mais é do que um reflexo da sociedade, tem parcela alta de culpa nessa questão em não proporcionar serviços públicos de qualidade a seu povo justamente porque a classe mais baixa que os elegem é obrigada a usufruir desse serviço sucateado e de uma educação meia boca, formando um círculo vicioso de promessas e esperança afastando o rico do mais humilde e diminuindo brutalmente a convivência social mais próxima através de um dos meios mais básicos: a educação - que tem por meta educar sua população da mesma forma, correto? Mas não somos a Dinamarca.

Pare e pense por um segundo, quem estuda na USP? Uma universidade pública é realmente para todos? De todas as lendas urbanas aposto que a mais falada é de que aquela é a universidade pública mais difícil de se adentrar, claro que através do estudo, do dinheiro da coxinha e se livrando um pouco da sanidade (LOL) você consegue, mas porque ela é tão difícil? Bom, este não é o ponto errado, mas ao observarmos mais a fundo percebemos que cerca de 80% dos estudantes de lá são oriundos de escolas particulares. Pois é. É aí que voltamos ao início do parágrafo anterior. A verdade é que nem todos tem as mesmas chances que deveriam ter e a questão principal não é o merecimento, mas o quanto você pagou na vida até a morte.

A verdade é que o dinheiro fala mais alto em todas as esferas e a sensação de poder que ele traz é inerente. Somos movidos pelo ego e segregados pelo dinheiro, e em favor dele muitos esquecem de lutar coletivamente e não só individualmente pensando "bom, se está bom pra mim...".

O que uma rede social faz nada mais é que cadastrar as pessoas do mundo (logo, se você não está no Facebook, não existe saca?), a sociabilidade duvidosa, as injustiças e as idiotices continuam a mesmas. Ninguém é igual perante a nada.

É utópico pensarmos assim, mas se tivemos uma identidade em comum um dia, infelizmente a perdemos.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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