Resenha Filme: Ele Está de Volta

sábado, maio 28, 2016


Nesse texto de ontem em que falei especificamente do episódio "The Waldo's Moment" (S02E03) de Black Mirror, eu deixei claro a concepção do político-personagem que simplesmente "fala o que todos queriam ouvir" que o episódio trouxe à tona. É exatamente esse o gancho do filme baseado no livro homônimo de Timur Vermes "Ele Está de Volta", mas se a caricatura é a mesma, ao contrário de Waldo, a persona é nada mais nada menos do que Adolf Hitler.

Imagine se Hitler acordasse próximo a seu bunker onde ele foi enterrado e que graças a um fenômeno temporal ele surgisse do nada 70 anos depois exatamente no mesmo local? Sem aviões, sem soldados, sem nada. Desesperado e sem saber o que aconteceu como o Capitão América que viu a Times Square pela primeira vez, Hitler toscamente acorda fedendo no meio da fumaça tentando saber aonde está sua esposa Eva, a SS e seu parceiro Himmler tentando chegar a Chancelaria antes que os inimigos o atacassem.

É aí que após receber spray de pimenta na cara ele se depara em frente a uma banca e vê a data: outubro de 2014. Mas como se fosse o destino, o agora "comediante" Adolf Hitler resgatado por um turco está em um lugar aonde ele pode absorver toda a informação para conhecer esse novo tempo e dar início ao seu plano de dar início ao III Reich (IV no caso). No tom leve do humor que trata de um assunto tão delicado, a situação de um homem totalmente deslocado de seu tempo é engraçadíssima. Por exemplo, é de dar risada a cena dele na lavanderia e na surpresa que ele tem ao saber que os odiados Poloneses ainda existem são praticamente uma parte da Alemanha! Blasfêmia!

Do outro lado da história está Fabian, um freelancer fracassado que trabalha numa emissora chamada MyTV, que é demitido, e que vê no "comediante" que não consegue sair mais do personagem uma chance de ser recontratado de volta. Assim que descobrem seu projeto, os executivos recontratam Fabian e com a baixa da audiência, a emissora vê em Hitler um potencial chamariz do canal. E com seu discurso apoiado no seu livro Mein Kampf, rapidamente ele vira uma web-celebridade instantânea conquistando a simpatia de todos, e como "comediante" que é, viralizando nas redes sociais e no YouTube, sendo falado aos quatro cantos em vlogs elogiando seus pontos de vista nacionalistas e de amor a pátria.

Contudo está na piada a grande questão do filme. É para levar esse cara a sério? Enquanto todos manifestam caras de dúvida, Hitler vai ganhando terreno para ser aquele político-personagem que diz "o que todos querem ouvir".

No tom documental estilo Borat, o ator Oliver Masucci fantasiado de Hitler saiu pela Alemanha para fazer o que o Adolf Hitler queria como segundo passo: saber o que o povo pensa. Surpresas por verem uma cópia de Hitler tão bem feita na sua frente, as pessoas desandam a tirar selfies compartilhando nas redes sociais os momentos com o "comediante" e ele como bom político que era perguntava a elas o que as fazia tão descontentes, não demorando muito para confidenciar a ele o descontentamento atual dos refugiados Sírios, dos políticos e até do sistema democrático ser uma mentira como uma nativa da Alemanha Ocidental declara. E histórias não faltam, como a de um senhor de classe chegar ao absurdo de dizer a Hitler que o QI dos alemães diminuiu em cerca de 20% graças a chegada de estrangeiros, e em outra cena assustadora, que Hitler acaba convencendo facilmente torcedores alemães a baterem num ator que bradava contra o país, obrigando a produção a intervir antes que algo de mais grave acontecesse.

Somente UMA pessoa em todo o filme se declarou contra toda aquela brincadeira. UMA fucking person! E o assustador é que não se tratavam de pessoas marginalizadas, mas sim pessoas de classe média, pessoas normais que acredita-se ter o potencial discernimento do discurso e da figura que Hitler representa.

A maravilha feita pelo homem que a televisão e a internet são se tornam de fundamental importância para Hitler e como ele não é bobo sabe disso, sabe que o povo atual é extremamente idiotizado e midiático, sabe que a sua imagem não mete mais medo a ninguém sabendo que Chaplin e tantos outros o interpretaram no cinema. Como seu amigo Goebbels dizia: "Uma mentira martelada mil vezes se torna verdade" e a piada que ele é e faz todos rirem, impedem quase que automaticamente as pessoas do que elas poderiam separar como certo e como errado. Aqui vemos claramente como um discurso nacionalista de direita, se bem aplicado, é extremamente eficiente aos ouvidos da sociedade. Quem não quer "defender" sua casa? Quem não quer se livrar daquele vizinho incômodo? É muito mais fácil eleger alguém assim do que eleger alguém que promove a igualdade que é inúmeras vezes mais difícil de se trabalhar.

Numa analogia perfeita ao ser imortal que leva um tiro, cai do prédio e surge segundos depois atrás do atirador. Ao final do filme Hitler diz: "Não podem se desfazer de mim, eu faço parte de todos vocês", e o fato é que isso é a pura verdade e é aí que no filme reside a sua maior crítica.

O que Hitler fez numa sociedade cada vez mais fraca em que a Direita para ele é um arremedo de gente que nunca leu seu livro e os skinheads são um bando de idiotas que não sabem o que querem (o que é verdade), foi se aproveitar do Hitler dentro de cada uma das pessoas e dizer justamente o que elas queriam ouvir e descobrindo o que elas de verdade pensam mas não dizem com medo das represálias de um pais que foi assolado pelo Nazismo. Como se lembrasse a cada um de que ele foi eleito de forma democrática pela nação alemã, e agiu exatamente da mesma forma que estava agindo agora, se aproveitando justamente da fraqueza de discernimento e do nacionalismo egoísta de cada um, que vivem cheios de raiva e de ódio mas procuram principalmente um culpado pela sua angústia aonde políticos canastrões e personagens de si mesmos se aproveitam ano após ano para angariar votos, como Hitler fez em 1930.

Ele Está de Volta é um filme certeiro para o que se propõe que é tocar em assuntos delicados, usando o humor para ser extremamente pertinente em uma época de tanta instabilidade política em que a Europa inteira que com bico abriga refugiados assolados por uma Guerra Civil devastadora na Síria. É aí que vale a reflexão: Vale mesmo dar voz a pessoas só pelo meme? Pela zueira? Pelo riso amarelo? Pela promessa que é música para os seus ouvidos, e só os seus ouvidos?

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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