Resenha Livro: Ensaio Sobre a Cegueira (José Saramago)

segunda-feira, maio 16, 2016


"Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." - José Saramago.

Sendo breve, "Ensaio Sobre a Cegueira" conta a história de uma inédita epidemia de cegueira, inexplicável, que se abate sobre uma cidade não identificada. A tal "cegueira branca" - assim chamada, pois as pessoas infectadas passam a ver apenas uma superfície "leitosa", uma luz branca, manifesta-se primeiramente em um homem no trânsito e lentamente espalha-se misteriosamente pelo país. Aos poucos, todos da cidade acabam cegos e reduzidos a meros seres lutando por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. À medida que os afetados pela epidemia são colocados em quarentena e os serviços do Estado começam a falhar, a trama segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afetada pela doença.

Por que aconteceu isso, será um episódio de "The Walking Dead"? Por que todos foram acometidos pela doença menos a médica? No começo do livro nos fazemos diversas perguntas, mas a graça de "Ensaio Sobre a Cegueira" é justamente mergulhar de cabeça no mundo de metáforas e filosofias que José Saramago traz na sua ficção.

De acordo com o dicionário, a palavra ficção é um sinônimo de fantasia, é a elaboração e criação imaginária, fantasiosa ou fantástica; mas ao terminar de ler o livro é simples de se perceber que o autor traz diversos questionamentos que, de acordo com a declaração dele que coloquei no início da resenha, são dolorosos, mas sem dúvida alguma indispensáveis pra nossa vida. E dentre das metáforas a mais marcante, claro, é a cegueira. 

O livro não se trata somente de uma cidade que de repente fica cega e que os humanos de repente tem que se adaptar a isso, e talvez a própria "cegueira branca" demonstre exatamente a diferença da cegueira comum que o autor propõe. A cegueira aqui é aquela que acomete a todos nós, dia após dia, que não só nos esquecemos ou simplesmente nos negamos a perceber, se interessar e sentir certas coisas ao nosso redor, mas simplesmente no respeito que temos a pessoa alheia ou a falta dele. Essa cegueira vai daquela pessoa que só lê a seção de esportes no jornal até aquela pessoa que fura a fila, a "cegueira branca" ignora o que lhe é inconveniente e difícil, é difícil ler sobre política, é difícil ser respeitoso com todo mundo; se trata justamente da zona de conforto que muitas pessoas inertes a ela e ao sistema se negam a abandonar.

Com a sociedade sendo reduzida a nada, no começo do livro acompanhamos os desdobramentos horríveis desse "apocalipse" que decaiu sobre aquela cidade, com o Exército colocando os cegos em quarentena e os enfiando de qualquer jeito em um alojamento, passando a os tratar como nada, nem como seres humanos. E nessa situação extrema, não importa se ainda se vê ou não, para cada um, soldado ou cego, o instinto reduziu parte daqueles que estão ali em animais e a parte do alojamento serve muito bem para exemplificar o lado absurdamente egoísta de cada um, que mesmo passando pela mesma situação do próximo olha para o próprio umbigo.

Mas o mais belo da história é o quadro que Saramago pinta sobre a sociedade atual: a solidariedade, o respeito, a simplicidade, a humildade, o egoísmo, a alegria e a tristeza; o que está em falta e o que sobra somente quando perdermos alguma coisa. Ao abrir o livro vemos a frase: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara", e a partir da primeira pessoa ser atingida pela cegueira vislumbramos como o ser humano pode ser reduzido a pó, afinal, podemos viver sem energia elétrica mas não sem os olhos, percebe a gravidade? Aliás, o fato da cidade e as personagens não terem nome dá a real dimensão da inutilidade disso perante a situação. Somos o cara da padaria, o cara da banca, o cara do óculos, o velho, a criança... e a forma de Saramago os tratar dessa forma só aproxima ainda mais a história do leitor como se cada um dali fosse algum de nós, fazendo a gente se perguntar não só como nos lidaríamos a essa situação lastimável, mas no que passaríamos a valorizar na nossa vida relembrando o que está esquecido.

A jornada de cada um deles os coloca frente a frente com seus medos e fraquezas e Saramago deixa cada situação extremamente verossímil de se imaginar. Só damos o valor devido a algo ou alguém quando o perdemos, é só quando sentimos a pontada da saudade e da perda que passamos a perceber o que fizemos e o que deixamos de fazer de verdade, e é a falta da visão que os fazem ficar mais fortes diante a esses sentimentos, passando a valorizar tantos outros que passam a serem mais sentidos do que ditos em circunstâncias normais, como o amor. É emocionante o crescimento da rapariga de óculos escuros em toda a jornada, como ela passou de alguém que só busca o prazer para alguém que é capaz realmente de amar e perceber o que realmente importa na vida além da visão que ela um dia podia recuperar.

Falando da mulher do médico, esta é a única que vê, e ela serve como os olhos do leitor e na minha interpretação como os olhos do autor diante a essa mazela. Não é explicado em nenhum momento porque ela foi a única em toda a cidade a não ser atingida pela epidemia, mas tão dolorido como ser a única pessoa que tem olhos num mundo de cegos, a personagem é admirável e penso que ela não ficou cega porque ela justamente foi a que em nenhum momento se entregou, bravamente lutou contra as dificuldades e cuidou de todos do grupo igualmente, não perdendo o sangue-frio e a esperança de um dia ver todos recuperarem sua visão. Em certos momentos do livro parece que essa foi uma penitência a ela, mas em outros tantos momentos a vi como a pessoa mais valorosa dali como se ela tivesse algum "merecimento divino" ou a missão de ser os olhos de quem não vê.

 "Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança".

A impressão que tive ao terminar de ler "Ensaio Sobre a Cegueira" é que ele um livro difícil que requer paciência do leitor - até porque o estilo de escrita característica do autor dá essa dificuldade -, mas fantástico em suas metáforas sobre a vida. Não, não é um livro de auto-ajuda propriamente, é uma ficção sim; no entanto penso que Saramago quis justamente nos fazer sentir angustiados e sujos com essa cegueira, ele quis nos fazer perceber como um mundo sem esperança, sem respeito ao próximo, lotado de medos e sem uma reflexão em nossas atitudes, realmente nos faz cegos.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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