O exagero em demonizar a Netflix por causa do cancelamento de Sense8


Apesar de ter gostado bastante de Sense8 e a elogiado bastante nas resenhas (aqui e aqui) que fiz sobre as duas temporadas, olhando criticamente, a série tinha grandes poréns que não passavam desapercebidos. Resumindo, a série sensate tinha potencial, mas a execução era complicada demais de ser realizada e o andamento tinha sim grandes "barrigas" principalmente na segunda temporada, esta, que apelou talvez demais para seu discurso inclusivo do que para o trama sensate que tinha que seguir em frente. Pense bem, eram OITO tramas diferentes sem contar esta, e por volta de DEZ localidades diferentes ao redor do mundo. A execução é lenta e complexa como a justiça brasileira. Corre nos bastidores que Lana Wachowski, devido a problemas pessoais, literalmente se cansou. O bolso da Netflix também, eram simplesmente US$ 9 milhões por episódio; e amigo, se ela não dá retorno nesse mundo capitalista, não tem Elon Musk que segure (bom, talvez ele). 

E entre aquelas pessoas que não suportam divergir e aquelas que adoram divergir, há um consenso: é um verdadeiro exercício de paciência entrar em uma discussão nos tempos atuais. Dizemos que há pessoas cabeças-duras, há aquelas que agem como pombos jogando xadrez, há aquelas que não abrem mão das suas crenças, há aquelas que só escutam; a verdade é que preza-se o exagero, o absurdo, o confortável. Uma parcela muito pequena investiga o que lê, e se você é alguém com uma opinião ponderada que chega no meio desta bagunça, é ridicularizado e taxado como pertencente ao grupo de A ou o B sem querer estar em nenhum dos dois lados, quer dizer, o direita e esquerda que há hoje.

Somos também um produto de manada. Agora que a Netflix cancelou Sense8, qualquer outro cancelamento de série e o próprio aumento recente de mensalidade do serviço de streaming tomaram dimensões gigantescas gerando comentários desmedidos, aqueles que como na política, se polarizam defendendo o serviço ou que irão cancelar porque está caro (!) e que a Netflix está cometendo uma sacanagem atrás da outra cancelando séries. É só abrir a caixa de comentários para ler tais absurdos e tornar-se irresistível entrar na jogada pra sair xingando depois.

Sense8 fez história por abordar a diversidade de uma forma tão natural e em muitos momentos comportou-se como um verdadeiro abraço a quem pensa dessa forma inclusiva, se tornando um importante instrumento discursivo em vários aspectos. 

Em seu final abrupto, talvez o que machuque mais seja ela ter sido cancelada sem um final digno, nem um episódiozinho que só. Bom, talvez um dia ela retorne, o mundo da mídia se provou ser líquido à la Zygmunt Bauman. Twin Peaks está aí para provar. Contanto, a verdade é que Sense8 não disse ao que veio na ponta do lápis. E indo além do lado afetivo que a série criou no público brasileiro, vale notar que no resto do mundo, ninguém está "nem aí" pro fato. Resumindo, Sense8 não trouxe os resultado$ que a Netflix queria, simples, e agora perceber que a Netflix na verdade não é aquele irmão revolucionário, uma voz ativa contra a televisão tradicional, machuca. Mas dinheiro é dinheiro, seja ele em cartão ou bitcoin, e como qualquer grande empresa a Netflix tem o poder e o dever de rever seus investimentos quando ela bem entender e aumentar a mensalidade contando que seu custo-benefício ainda é infinitamente superior ao que é entregue. Pagamos ainda muito barato pelo o que a Netflix entrega, e ponto final. Com R$ 27,90 pelo plano de duas telas eu pago o meu almoço e só.

Creio que ainda mais nos tempos de hoje, é fundamental adquirir uma visão macro para todo e qualquer assunto com o objetivo de não se voltar para o próprio umbigo, correndo para se vangloriar por ser o único "que percebeu" que a máscara do corporativismo caiu por terem cancelado tal série que gostava, quando na verdade ninguém se importava com Girlboss, The Get Down ou Marco Polo até ontem - séries essas que compartilham o fato de serem caras (a exceção da primeira) e terem trazido pouca audiência, para você comparar: The Get Down custou US$ 120 milhões e Marco Polo US$ 200 milhões de Trumps ao final de duas temporadas. Não as assisti, mas Sense8 ao lado de Demolidor, House of Cards e Orange Is The New Black era um dos maiores expoentes da empresa, era boa, mas não tudo isso. A verdade é que a Netflix ainda procura sua grande produção à la HBO. Mas sobretudo, é importante entender que a Netflix é uma empresa como qualquer outra que equilibra-se entre lucros e despesas, como a HBO que cancelou True Detective e The Night Of mesmo com suas qualidades inquestionáveis. Resumindo: dá lucro, fica na grade. 

“Relativamente ao que você está gastando, as pessoas estão assistindo? Isso é bem tradicional. Uma série grande e cara para um público grande é ótimo. Uma série grande e cara para um público pequeno é difícil fazer durar muito tempo até mesmo no nosso modelo de negócios” 

- Ted Sarandos, CEO da Netflix

Soa ameaçador eu sei. Talvez a infelicidade da empresa seja em estar divulgando estas notícias seguidamente, mas vale ponderar que entre erros e acertos, o que a empresa tem proporcionado no mundo midiático mudou até nosso comportamento. E nessa busca incessante pela variedade de conteúdo, ao mesmo tempo em que a Netflix quer se livrar das amarras das distribuidoras que cobram milhões pra renovar contratos de distribuição, a empresa investe em conteúdo próprio para se diferenciar no mercado com o intuito de não ser uma "locadora" para sempre como foi antigamente. Amazon, HBO e Fox já entraram nessa jogada, até a Globo; com isso nós consumidores saímos ganhando. Quanto mais variedade melhor, e não justifica apedrejar a vidraça inteira porque um pedaço se partiu, a variedade de séries de qualidade é tão grande, até na própria Netflix, que simplesmente não entendo o burburinho.

Em debates tão polarizados em que ninguém convence ninguém, mal se escuta e é tão importante ter uma opinião e abraça-la até o final dos tempos, o Facebook nos entrega verdades que queremos acreditar e com isso ficamos em nossas bolhas sem entender realmente as divergências que ocorrem. Obviamente não estou dizendo que fabricou-se fatos, mas sobre a Netflix o bom senso acabou ficando em plano Z e todos gritamos nessa praça sem entender nada e nem querendo sair da caixa.

Resenha Série: The Leftovers


Cercados de incertezas, a única certeza que temos é a morte e talvez por isso há tanto fascínio e temor. Simultaneamente, uns tem o pavor do "invisível", já outros abraçam a única certeza esperando a paz que ela proporcione, ou celebrando uma vida bem vivida ou o puro arrependimento do que não se fez.

Independentemente da compreensão filosófica que se tenha sobre a morte, não deixa de ser uma certeza esse fim e isso nos conforta completamente. É como se fosse um livro. O que vem depois é puramente uma interpretação ou a vontade de aumentar a importância da nossa existência, mas o que importa é que "The Leftovers" aconteceu que essa dúvida invadiu a certeza. 140 milhões de pessoas, ou 2% da população mundial "partem", e além do natural espanto e desespero, há o abalo permanente de tudo em que se acredita.

O que acontece em "The Leftovers" sugere uma investigação, mas a série não é sobre os que foram, e sim sobre os que ficaram. A partir do momento em que entendemos isso, passamos a entender a história de David Lindelof e Tom Perrotta do ponto de vista que eles querem que nós compreendamos. A história se trata sobre perguntas e não respostas.

Em dado momento da série, os Remanescentes deixam de serem loucos para serem pessoas completamente quebradas. O final do mundo aconteceu para todos e nada mais ficará normal. O que eles fazem deixa de ser crueldade se tornando o puro desespero de pessoas marcadas por um eterno luto, o mundo chegou ao final e as quebrou totalmente. Se sentir solitário não é uma alternativa, é como um desrespeito. E aí percebemos que tanto como os Remanescentes Meg (Liv Tyler), Patti (Ann Dowd), como os habitantes de Mapleton, Kevin (Justin Theroux), Nora (Carrie Coon), Laurie (Amy Brenneman), Matt (Christopher Eccleston), precisam um dos outros pra tentar continuar em frente de alguma forma. Todos perderam. Se sentir só realmente não é uma opção nesse mundo que se acabou, e o que difere uns dos outros é o que se faz com a dor.

Desde os misteriosos Remanescentes que se negam em sentir a própria dor abrindo mão de tudo aquilo que há nas suas vidas, passando a usar branco e fumarem cigarros freneticamente num misto de desvalorização, auto-destruição e busca pela paz; até o misterioso Wayne que surge como um tipo de Messias que promete tirar a dor em um abraço. De Nora que escuta explicações científicas ridículas pra ir até o final pra ver se o coelho residia naquele buraco realmente, ou Kevin que vê a vida ruir para duvidar do que é real e do que não é, e de Matt que busca o divino pra se apoiar. A busca de todos após esse acontecimento é entender sua existência, ter um propósito, se sentirem seguros. Após essa partida repentina como se pode amar alguém? A partir daí como poderá ser o que se era?

Após esse acontecimento, a morte deixou de ser um fardo para se tornar uma certeza que conforta, aliás, enterrar alguém que se ama é mais do que uma experiência dolorosa, é um ritual necessário que simboliza o marco inicial da luta do prosseguimento normal da vida. A certeza nos conforta, o "se" nos corrói, e o sentimento dos habitantes de Mapleton e que tomou Jarden na segunda temporada é justamente esse.

Nesse círculo de luto, na discussão de fé, de existência, de propósito, na compreensão da coragem, força e de dor. A cada episódio muitas vezes não-linear e por diversas vezes incompreensível de uma serenidade sem tamanho, "The Leftovers" trouxe camadas e mais camadas de entendimento em um exercício de pura absorção, sem em nenhum momento usar do gancho especulativo de um drama e outro que tanto esperamos. "The Leftovers" se trata de aceitação, não de tentar se questionar o tempo todo do porque esses 2% se foram, mas sim entender que eles se foram. Na verdade, o que esses 2% fizeram vendo os outros 98% partirem?

Na conversa cara-a-cara aonde "The Leftovers" termina, Nora representa o espectador, aquele que como eu esperava lá no fundo algum tipo de explicação e não se conforma de que é só isso, a dor é o motor que provoca esse questionamento. Mas eles se foram, esse é o fato. E Nora aceitou, aceitou o lugar em que ainda podemos fazer alguma diferença, afinal, todos nós estamos nos sentindo sozinhos e desprotegidos, tanto os que partiram como aqueles que ficaram.

Ao final de seus 28 episódios em "The Book of Nora", com essa conversa entre Nora e Kevin, reencontrando-se após muitos anos procurando esquecer do que é impossível não lembrar, houve-se uma lição de persistência e esperança. O episódio foi o encerramento de tudo o que a história quis demonstrar.

Nora finalmente alcançou a paz, como Kevin, nos relembrando da importância que é estar vivos e de se amar de alguma forma, em um final simples e poético; sem perguntas, onde tudo e nada é respondido numa troca de olhar comovente entre o homem mais poderoso do mundo e a mulher mais corajosa desse mundo. Muito mais do que explicações de Nora sobre se tudo o que viu é real, queremos acreditar, como Kevin, pois simplesmente estamos ali para ouvir o que Nora tem a dizer. Diante ao que aconteceu, é preciso seguir em frente,

Em um final irretocável e emocionante de uma história que tratou-se sobre aceitação e superação onde cada personagem representou um pedaço do caos em que o mundo se tornou. Numa conclusão tão impactante quanto o começo, "The Leftovers" mostrou-se uma história poderosa o suficiente para transformar a "partida repentina" irrelevante aos olhos de quem assiste, em que para entendê-la, é preciso muito mais de sentimento do que anseio.

Resenha Série: Deuses Americanos (1ª Temporada)


Explicar a "existência" de um deus é complicada, mas uma coisa fica evidente na obra de Neil Gaiman. Os deuses existem a nosso bel-prazer e eles se modificam a medida em que nós evoluímos.

A compreensão de tudo o que nos cerca é cada vez maior, portanto, os deuses mudam, mas nunca eles deixam de existir. Claro, precisamos nos proteger contra o que não compreendemos ou simplesmente contra o que não queremos encarar que seja a temida verdade, passando assim a usarmos os deuses, quer dizer, O Deus, para nos dizer o que é A verdade fugindo dos nossos medos numa eterna busca em compreender a própria vida e dar um sentido a própria existência.

Tanto o livro quanto a série são recheados de meta-linguagem demonstrando que o esquecimento que esses deuses foram relegados em detrimento da evolução da compreensão do homem, que não se tornou necessariamente a sabedoria. Shadow Moon (Ricky Whittle) nos representa na série como o ser permanentemente confuso no livro/série de difícil digestão, mas talvez todos nós sejamos Shadow diante ao mundo cada vez mais conectado e alucinante em que nos perguntamos "que porra é essa". 

A obra do ateu Neil Gaiman não gira em torno de crer em nada, ao contrário, busca refletir com um lado oculto e mágico da existência que deixamos de lado numa vida em que com certeza não entendemos nem metade das coisas que vemos. Nessa metáfora dos deuses com a vida, independentemente disso nós precisamos buscar histórias que nos ensinem a como poder viver. Para ele e para Wednesday (Ian McShane), nos deuses residem essas histórias e tais histórias estão se perdendo para coisas que não controlamos, os neodeuses, como a Mídia (Gillian Anderson) ou os nomeados Mr. World (Crispin Glover - o pai de Marty McFly) e Technical Boy (Bruce Langley).

Os deuses são a manifestação de nossos desejos, eles são o que acreditamos que eles sejam e representam o que somos e o que existe; o que na visão de Gaiman encaixa-se perfeitamente sobre a realidade em que vivemos. Sobre isso, a alegoria com o Jesus (Jeremy Davies) mexicano é precisa ao questionar, por exemplo, a xenofobia cada vez mais presente no mundo atual ou mesmo a escravidão com Anansi (Orlando Jones), sem contar a misoginia com Bilquis (Yetidi Badaki) e o mundo protecionista Vulcan (Corbin Bernsen) - que foi criado especialmente para a série.

Em tempos de Netflix em que maratonar histórias se tornou um achievement motivado pela própria Netflix e sua contagem regressiva, que liga um episódio ao outro que busca que você passe o dia inteiro em frente a televisão; tornou-se uma exigência aos showrunners e diretores produzirem séries com o ritmo cada vez mais impactante entre os fatos com o intuito principal de prender a atenção do público. Então se você procura um entretenimento mais tradicional "Deuses Americanos" não é para você. O ritmo aqui é lento e o roteiro é denso escondido atrás do surrealismo visual. 

Contando com diálogos fortes e fotografia belíssima, o senso de mistério é presente o tempo todo e a figura dócil e ameaçadora de Wednesday representa isso. Aqui a mão de Neil Gaiman como produtor executivo acaba pesando em Bryan Fuller (uma escolha certeira), onde ele expande as histórias do já pesado livro servindo como um complemento delicioso para quem, como eu, leu a obra (como na trama de Laura (Emily Browning) e do leprechaun Mad Sweeney (Pablo Scheibler) além de dar vida ao que lemos no livro. Resumindo, essa primeira temporada claramente serviu como introdução e talvez o erro dela seja em ter sido direcionada muito aos fãs de Neil Gaiman e do livro que a inspirou, afastando assim o espectador leigo que buscava um entretenimento menos atravancado, deixando a história mais palatável pra quem não a conhece.

Sim claro, é evidente que toda e qualquer produção televisiva desde o início tem esse objetivo final de prender a atenção do espectador, no entanto, isso tem intensificado graças aos tempos atuais em que o conteúdo é cada vez maior, tal qual a velocidade que nós tentamos digerir tudo isso. É só prestar atenção em você mesmo. Para os quatro cantos do mundo e da casa carregamos os nossos celulares aonde for, e num exercício involuntário o tiramos do sofá por mais interessante que seja a série, mesmo que seja pra inutilmente olhar a hora que a cinco minutos acabamos de ver ou esperando a mensagem que não chega. Somos marcados pela ansiedade. É uma osmose, um vício que não admitimos a nós mesmos ter. Sentimo-nos sem um braço ao sair de casa sem o celular e temos um ataque cardíaco ao não senti-lo em nosso bolso. Talvez a única vez que nos libertamos de tudo isso seja enquanto estamos dormindo, mas se o mundo não deixa de marcar presença em nossos sonhos, temos que estar com o celular ao lado para "sentir" sua existência. 

Tudo isso foi para dizer aonde "Deuses Americanos" gira, que é em torno do que idolatramos e dependemos. Nos tempos mais antigos idolatrávamos deuses para explicar o que não compreendíamos, agradecendo-lhes pelo que nos era proporcionado e clamando para eles nos protegerem contra o que não conseguíamos nos proteger: o medo. Estabelecia-se aí uma relação de troca, os deuses existiam assim que nos acreditávamos neles, e eles existindo passavam a residir no sentimento de gratidão que tínhamos por sobreviver por mais um dia. Hoje? Mal sabemos. Mas ao contrário de Laura não temos a chance de renascer pra dar valor à vida. Talvez a história dos deuses sirva pra isso.

A bola foi levantada DC, o caminho é esse


Quando uma fórmula faz sucesso, automaticamente tenta-se renovar essa ideia e em dois sentidos mercadológicos:

1. Pra fazer o sucesso que essa ideia teve, ela precisa ser trazer algo novo para durar um tempo maior

2. Trazer um diferencial sobre essa ideia que também atraia o público buscando que esse diferencial seja confundido com a "minha marca".

Tá parecendo uma introdução de um livro de marketing, mas na faculdade de publicidade pude elucidar e compreender algumas questões sobre essa guerra que DC e Marvel travam pela atenção do público.

Muita gente discute e até condena essa malfadada "fórmula Marvel de cinema" que na grande maioria de seus filmes abordam seus heróis da mesma forma, impossibilitando um desenvolvimento maior de sua personalidade e em contrapartida apelando pra o que seus heróis têm de mais forte sobre o lado humano; assim, os aproximando ao seu público e trazendo ação e aventura pra quem quer ver isso e pra quem espera ver isso. Essa é a característica da editora desde sempre e a Disney sabe disso, aplica em seus filmes da melhor forma e lucra rios de dinheiro proporcionando a seu público o entretenimento necessário fugindo de criticas e polêmicas ao olhar da grande massa de seu público. Entre escorregões como em "Doutor Estranho" e sucessos inegáveis em "Capitão América 2" sua fórmula bem-sucedida entre os reles mortais está ali, e nem tem porque alterá-la porque em "time que está ganhando não se mexe".

Sobre isso, na resenha de "Batman v Superman" apontei que apesar dos milhões de defeitos, o filme tinha uma qualidade inegável dentro de si que era: se sobrepor corajosamente a fórmula super heroica que víamos no cinema adicionando assim um caráter dramático a seus heróis. No entanto, o insucesso foi uma marca e a DC tropeçava feio em erros primários ao talvez tornar seus filmes muito mais grandiosos do que eram, escolhendo o chamariz dos dois heróis envolvidos do que uma certa humildade em reconhecer que ela apenas estava começando nesse jogo. Já em "Esquadrão Suicida" o jogo foi totalmente diferente, depois desse tropeço gigantesco na via investimento x retorno, a solução "genial" encontrada era refilmar partes do longa, mudar o tom do filme e "vender" o que não foi comprado (estou procurando o Coringa até agora) tornando o filme mais divertido (e lucrativo) a grande massa, mas igualmente sendo um insucesso de crítica.

O que quero dizer com tudo isso? Ao contrário da Marvel, a DC nunca soube jogar com os pontos fortes de seus heróis. Eles eram deidades, por si só são afastados da humanidade e nos salvam por uma questão de honra, não somente em busca de justiça; afinal, exceto o Batman, eles não têm nada a ver com a Terra.

Onde "Mulher-Maravilha" acertou? Nisso.

Marvel e DC têm em seus heróis qualidades que se assemelham mas que guardam diferenças em como são abordadas. Enquanto a primeira criou heróis que se aproximam do que eu e você somos e sofremos, a segunda tem heróis que são muito maiores que isso tudo. Deuses, guardando o que há de mais nobre no ser humano e os inspirando eles com muito mais que um simples senso de justiça.

Pois é DC, graças à sensibilidade de uma mulher você acertou finalmente.

Brincam que todos queriam ser o Batman, mas DC, nem todos os heróis devem ser como ele.

Resenha Cinema: Mulher-Maravilha


Sinceramente não há muito a falar do roteiro pois ele é uma simples história de origem, mas é suficiente pra deixa bem claro de que, se assemelhando ao roteiro do primeiro "Capitão América", Diana sempre teve em seu coração a nobreza necessária para ser alguém de honra.

Tudo começa quando o espião norte-americano Steve Trevor (Chris Pine) acaba colidindo seu avião contra às águas da Ilha Paraíso e Diana salva a sua vida. E capturado para interrogatório, através dele Diana e Temiscira ficam sabendo da guerra mundial que está ocorrendo e se dispõe a ajudar Trevor na batalha contra o deus Ares, que para ela provocou tudo isso e é missão de uma amazona como ela derrota-lo, seja em Temiscira ou no mundo do homens. Enquanto Trevor e Diana (Gal Gadot) tentam sair de Temiscira a contragosto de sua mãe, a Alemanha está desenvolvendo um poderoso gás mostarda que para o general Erich Ludendorff (Danny Huston) tornaria os alemães invencíveis, e é missão de Trevor e de Diana impedir que isso se concretize, acabando com a guerra de uma vez por todas.

Patty Jenkins tratou a heroína da forma como deveria ser, transportando-a para a tela da forma como a conhecemos. Com os seus pontos fortes e a sensibilidade que a fizeram ser conhecida, Patty construiu um filme que contrapõe perfeitamente a inocência de Diana com Trevor sem em nenhum momento cair no comum de transformá-la em um tipo de ícone feminino, logo, não alterando traços da sua personalidade para a identificá-la aos tempos atuais ou lhe causar conflitos forçados para o aproximar do espectador.

Ela foi ensinada a defender Temiscira dos deuses e foi para a bagunça do reino dos homens para inicialmente "os defender de Ares", mas com sua inocência de amazona, soube perceber que aquele mundo não tinha que ser defendido pelos deuses, mas sim dos próprios humanos que tinham em si o bem e o mal.

Diana Prince é a Mulher-Maravilha e vice-versa. Em um filme correto e de um arroz com feijão daqueles bem temperados, eu saí do cinema com o sentimento do que é ser verdadeiramente um herói. Já está óbvio que dará tudo certo, mas no roteiro simples e firme se escolhe fortificar o ícone, a deusa, a personagem; a construindo como alguém que carrega consigo um sentimento que acaba sendo maior que qualquer humano. Isso é ser um herói, ela carrega um ideal, algo que não senti da mesma forma nos filmes da Marvel. Por ela nutrirmos um sentimento de respeito e isso só fortifica o sentimento girlpower que ela carrega consigo, aliás, há algo mais atual que isso?

Diferentes valores de justiça não podem ser aplicados como nós bem entendessemos


Costumo dizer aos outros e para mim mesmo que a vida é uma luta constante para estar certo. E ultimamente estar certo tem sido um achievment de conquista desbloqueado, quer dizer, mais um objetivo do que uma consequência, motivado principalmente pelos fenômenos das redes sociais.

No inocente "o que você está pensando" se esconde o verdadeiro questionamento do "o que eu deveria estar realmente pensando?", ou simplesmente do "eu deveria estar realmente pensando isso?". Ele te incita. Perfil em rede social significa autenticidade em um mundo que você sempre está certo, e como isso faz bem ao ego.

Na verdade, ter uma opinião e defendê-la é algo deveras complicado, e nessa batalha pelos likes que potencializam risadas em torno de pequenas frases que revelam muito mais do que queremos dizer, a consequência mais breve é que continuamos a ter ideias, mas nem queremos saber como defendê-las, afinal, tenho meu "bando de amigos/páginas virtuais". Não precisa argumentar, basta ser engraçado e aí figuras como Danilo Gentili aparecem.

Desde que o mundo é mundo e adquirimos o advento da fala, incorporando assim ao meio de linguagem que surgia através de gestos, grunhidos e desenhos, mas qualquer um escorrega quando em uma pequena frase se traveste de seus preconceitos e valida suas atitudes em virtude do bem maior. E nesse ioiô histórico desde o iluminismo em que alternamos monarquias, feudalismos, ditaduras e democracias questionando a justamente a pluralidade que possibilita o próprio pensamento assim que ela "dá errado", a dualidade de ideias permanece até hoje com o comunismo x capitalismo onde constantemente nos questionamos sobre a solução imediata do que fracassou; e apoiado na ideia que nenhum sistema funciona, tentamos pregar aos quatro cantos uma ideia que solucionaria todos os problemas ou endeusando alguém que serviria a este propósito ao invés de tentar aprimorar a si próprio ou o que já existe.

Na luta de classes cada vez mais polarizada, virou verdade o dito que "defender os direitos humanos é defender bandido", mas entre uma avalanche de fatos aterradores com o nossos dinheiro que sempre existiram, é esquecido que tais direitos são os mesmos que impossibilitam a propagação do fascismo - lembre-se que Hitler ascendeu ao poder com a lei da época debaixo do braço.

Falhamos na democracia? Talvez a reflexão tenha que ser feita por aqueles que preferem votar em trocas de favores de políticos marketeiros profissionais, ou em figuras caricatas que são o povo do povo ou em trabalhadores meritocráticos - elegendo no final das contas um "puxador de votos" - seja que nessa brincadeira menos de 7% da Câmara foi eleita pelos cidadãos, um verdadeiro deleite pelo balcão de negócios que se tornou os partidos políticos do empresariado (e tem gente que defende o liberalismo). Fundamentados na conquista de território e em tais financiamentos privados, em suma, ainda praticamos o voto de cabresto elegendo barões do café, mas agora da soja, da bala e da bíblia que são nada mais que tais defensores de ideias e da perdida moralidade que achamos que é justa de verdade.

Esses dias tem se propagado nas redes sociais o caso do jovem de São Bernardo do Campo que teve sua testa tatuada com os dizeres "eu sou ladrão e vacilão" após uma tentativa de assalto de uma bicicleta, e entre amigos virtuais e outros existentes, vejo diversas manifestações de apoio ao ocorrido e repúdio a aqueles que tentam ver o significado disso de uma forma mais humanista. Mas vamos aos fatos, relembrando aos esquecidos o óbvio:

Isto não é um jogo.

Tudo isso serviu para exemplificar que a caça de likes potencializados pela ausência de caracteres que procuram contradizer a revolta que um "textão" se notabilizou, acaba por ser uma bolha ideológica de ideias que no final das contas sustenta políticos intolerantes defensores do cidadão que se auto-intitula de bem, o que quer que o íntimo senso de justiça seja atendido e nada mais. Assim, chegamos até este ponto aonde defende-se que um crime deve sim justificar o outro. Datenas e Sherazades que ensinam que devemos ser educados até o certo ponto em que fere-se o diferente valor de justiça que você tem de mim, desviando-se do "peixe grande" que provoca o temido termo dos preguiçosos amantes da discussão que é: o reflexo social.

Numa sociedade tão injusta que parece ser ainda mais injusta depois de serem revelados esquemas e mais esquemas oligárquicos que transformaram nossa democracia em um mero atendimento de favores, é mais que natural e justificável a revolta de um povo por um sistema que em teoria deveria ser isonômico, contudo, é esse mesmo falho e falido sistema de leis (que são maiores que nós e o próprio sistema) que convivemos que impedem que retornemos às regras bíblicas de Davi e garantem a mesma liberdade que se tem possibilitando a contraditória defesa do que acaba sendo puro egoísmo.

É complicado tentar explicar o óbvio e esquecido, mas é justo a definição de justiça ser medida por cada cidadão? Verdadeiros torturadores e criminosos são aqueles que nem estão no meio dessa discussão. Logo, os condenados acabam sendo eu e você.

Resenha Filme: Sete Minutos Depois da Meia-Noite


Lidar com a dor de ver a morte de alguém querido é uma tarefa complicada para pessoas de qualquer idade, ainda mais quando participamos diretamente do processo da transição, e pessoalmente, acredito que essa é a parte ainda mais difícil se compararmos com a perda de fato. Presenciar a dor dessa pessoa amada diante aos olhos nutrindo junto a ela a esperança de que tudo voltará a ser como antes ao mesmo tempo em que intimamente vislumbramos a possibilidade de que toda aquela luta será praticamente impossível de ser superada por diversos fatores, dilacera o coração de quem foi testemunha disso, pois desperta o pior sentimento do ser humano que naturalmente nutre a esperança: a impotência.

Juntamente com essa impotência pessoal em ter que depositar a esperança de melhora em terceiros, o medo e a insegurança constante de imaginarmos possibilidades trazem consigo a contradição de querer que tudo aquilo acabe, em suma, enfrentar a verdade da finitude é a parte mais dolorosa de qualquer atividade na vida, pois implica o bem e o mal na mesma decisão restando uma ponta de egoísmo e sinceridade na tarefa de aceitar que a vida termina pra uns e continua para outros; e a dor acaba sendo o sentimento que nos separa, independentemente da religião, crença ou escolha que cada um faça e aonde poderemos ter algum suposto conforto acreditando que aquele que amamos, ao deixar de ter esta dor, estará em algum lugar melhor que nós que temos a difícil tarefa de seguir a vida. É aí que a parte da aceitação entra.

"Sete Minutos Depois da Meia-Noite" trabalha isso usando a figura do monstro residida em um subconsciente para nos ajudar a relembrar (para quem já passou por isso) como esta tarefa é complicada, um monstro que temos que domar (como aparece no pôster). O roteiro escrito por Patrick Ness, escritor do livro em que o longa é baseado, ajudou a transição dessas questões de forma absolutamente perfeita, sensível e singela como deve ser emocionando de verdade sem apelar pra pieguice.

Conor (Lewis MacDougall) é um garoto perturbado emocionalmente por causa da luta da mãe, Lizzy, (Felicity Jones) contra o câncer, percebemos isso em seu rosto e em seu silêncio. O garoto é diferente, mas dado a este assombro em vislumbrar a perda da única pessoa que o entende verdadeiramente, o garoto se perde nessas diferenças, se isola e usa até da dor para "aliviar" a dor que sente através do bullying que ele sofre na escola.

Não importando o que isso lhe inflija, ele não quer ser invisível, ele quer a punição (note como essa metalinguagem é usada) aonde seja, tentando desesperadamente criar uma rotina vencida em torno de si mesmo com o objetivo de por minutos acabar esquecendo o que está acontecendo. Uma realidade em que ele está velho demais para ser uma criança e jovem demais para ser um adulto, de um certo alguém que não se vê encaixado em nenhum lugar; seja com o pai e seja com a avó não importando a demonstração de amor que eles tenham com ele, aonde Conor usa o desenho (note que ele não termina nenhum) para tentar de alguma forma se conectar o seu subconsciente com o papel ao mesmo tempo em que com isso ele tenta com isso relembrar dos momentos felizes que sua mãe - aspirante a estudante de arte - mostrava seus desenhos a ele.

Em uma noite ele é visitado por uma ameaçadora e carismática árvore (voz de Liam Neeson) que tem a tarefa de lhe contar três histórias e dá a Conor a obrigação de contar a quarta, a verdade, o sonho/pesadelo daquilo que tanto teme e que esconde em seu íntimo.

A beleza do filme está em como são contada tais histórias aonde o vínculo com o espectador é criado instantaneamente, singeleza visual com as histórias contadas com o auxílio da aquarela, e sensibilidade em fazer compreender de que as decisões difíceis não guardam mocinhos e bandidos, mas sim decisões. Breves ensinamentos que são direcionados a nós e ao protagonista se conectando com o íntimo de cada um.

Como filme triste e simples que é "Sete Minutos Depois da Meia Noite" guarda em seus personagens o de melhor do longa e o suficiente para nos conectarmos e entender cada um dos personagens. Nós sentimos o desafio e a dor no coração de Conor, o amor verdadeiro de mãe em Lizzy, e a dor velada no coração da sua avó - marcado principalmente pela forma que ela reage quando vê todo o cômodo destruído por Conor. 

"Mas do que adianta?", frase que é dita a Conor quando este espera punição. É como se o relógio fosse a alegoria perfeita do que nos apegamos, como se cada um dos personagens fosse um nó no coração de cada um ao representar uma reação íntima que temos diante a finitude de alguém amado. É a troca de olhares e o silêncio de cada um dos personagens que guardam todo o poder da obra, é o desespero de ela dirigir sem muito sentido em alta velocidade terminando em um abraço em Conor ou nos olhares de Lizzy para ele e até do moleque que o espanca que guardam tudo aquilo que a história quer dizer.

Nos preocupamos com Conor e entendemos que ao final, na pose acolhedora e ameaçadora da árvore que o faz dizer a si mesmo a verdade, acaba-se causando o sentimento suficiente para a gente derramar lágrimas relembrando de como a aceitação dessa parte da vida é difícil.

Resenha Filme: The Discovery


De onde viemos, o que somos e para onde vamos. A produção original da Netflix "The Discovery" trabalha em cima da resposta à terceira pergunta.

Essas perguntas que afligem a humanidade desde que ela surgiu é o cerne central da existencialidade e da própria filosofia, afinal, é o medo da morte e o enfrentamento da questão da finitude inexorável a todos que nos move para tentar dar um sentido a nossa vida.

Necessitamos ser bons, e no alto de nossa natural curiosidade e prepotência necessitamos invariavelmente de dar sentido a tudo, acreditando que em vida sejamos recompensados por algo além da mera causa e efeito, quer dizer, a imortalidade é compreendida como o máximo do que uma pessoa pode ser. Como conforto, a imortalidade é uma válvula de escape para acreditarmos que nós e quem amamos irá para um lugar melhor e que futuramente a saudade deixará de existir porque "reencontraremos" esse alguém em algum lugar.

Nossa vida é pavimentada pelo "e se", somos afligidos não só pelo o que é, mas pelo o que pode ser.. Sendo a vida um eterno jogo de escolhas, creio que o nosso maior desafio é lidar com elas da forma menos dolorosa possível entendendo o passado e o presente, encarando o fato que com a ameaça constante da falibilidade que nos permeia, a melhor coisa a se fazer é assumir o peso das responsabilidades e do que nós somos antes de tentarmos melhorar como pessoas.

Thomas Harbour (Robert Redford) anuncia em uma entrevista que encontrou a prova científica de que há a vida após a morte, e essa confirmação provoca um suicídio na sua frente e cerca de quatro milhões de mortes em cerca de dois anos, quer dizer, a morte deixou de ser um mero fim para ser uma suposta "segunda chance" para certas pessoas que escolhem se libertar do peso que tem em vida, transformando um suicídio em uma alternativa ainda egoísta, mas agora plausível e não algo somente "ofensivo". O que "The Discovery" tenta deixar claro é de que a morte igualou o peso da vida a partir dessa grande descoberta, portanto o desafio agora é valorizar a vida - o que é complicado por si só sem o apoio do incerto e do errado.

Thomas desaparece após o ocorrido, mas em segredo absoluto quer saber o que há depois dessa vida após a morte e aí o filme toma rumos de um thriller envolto em suspense, mistério e até assustando na parte em como nós poderemos vivenciar esse além e como isso poderia ser usado pelos que escolhem ainda ficar.

Resumindo, tanto nós e o verdadeiro protagonista Will Harbour (Jason Segel) desejamos que isso nunca pudesse ter sido descoberto, compreendendo juntamente com ele que não importa quanto o ser humano tente dar sentido as coisas que faça, ele sempre continuará repetindo os mesmos erros que comete. A paleta de cores frias, o ambiente sempre escuro, os personagens sempre carregados tentando carregar o peso das escolhas e decisões (principalmente Will), dando destaque nessa parte à conturbada relação entre Will e Thomas.

Contudo, "The Discovery" carrega muitos defeitos. Apesar de ter essa premissa interessantíssima o filme não se aprofunda nessas questões, e mesmo com a escolha pelo lado científico e até romântico na relação fria entre Will e Isla (Rooney Mara) que derruba o filme, o roteiro acaba não se sustentando pelo seu ritmo lento e pelos seus diálogos fracos que não conseguem sustentá-lo, principalmente por essa premissa que carrega tanto potencial filosófico. Podem me acusar de não entender o filme, mas mesmo com seu final dúbio eu não acredito ter alcançado a compreensão certa, passando a impressão de que esse final forçadamente tenta nos causar a reflexão de que o filme inteiro não se aproveitou, o que é ruim.

A questão da imortalidade fundamenta religiões através dos tempos confortando e servindo como um guia moral que irá nos conduzir a algo maior, seja lá o que isso possa ser. Não vou entrar na discussão do quanto isso possa ser bom ou mal ou realmente necessário, isso é tão íntimo de cada um quanto complexa de se discutir; e "The Discovery" ao mesmo tempo que provoca a expectativa quase que instantânea que assistiremos a uma história que carregará diversas frases de efeito e questões que nos fariam refletir acerca da existência, diria que, apesar dos poréns, o filme num todo acabou acertando ao negar a percorrer este caminho mais complexo e mais fácil que própria pergunta em si incita filosoficamente e moralmente, preferindo ir pela questão científica e até romântica ao mesmo tempo em que (de forma meio confusa) tem um final dúbio, que na minha interpretação foca na dor da escolha e do quanto incompreensível ela possa ser.

O que passa pelos meus fones #146 - Mr. Big

São quatro pontos a serem esclarecidos.

1. A primeira coisa que chama a atenção é a guitarra de Paul Gilbert. Contando com uma mixagem mais grave (e mais esquisita dependendo do ponto de vista) essa ganhou mais peso e ainda mais protagonismo juntamente com o baixo sempre competente de Billy Sheehan. Os dois são monstros.

2. Como é bom ver Pat Torpey se recuperando. Se você não sabe, em 2014 o baterista foi diagnosticado com mal de Parkinson antes da turnê do álbum "The Stories We Could Tell" sendo substituído por Matt Starr. Lógico, ele se faz presente em "Defying Gravity", mas Pat está também ali segurando as baquetas em "Everbody Needs a Little Trouble" participando de todo esse clima. Uma grande prova de amizade e companheirismo do resto da banda não afastando seu amigo de tudo isso.

3. Eric Martin não envelhece, mas com esse cabelo mais curto parece uma lésbica de 40 anos.

4. Apesar de mais pesado (o que me agradou bastante) "Defying Gravity" continua sendo Mr. Big puro e será lançado dia 7 de julho,

O que passa pelos meus fones #145 - Royal Blood

O que dá pra se fazer com um baixo e uma bateria? Muitos diriam que essa é uma banda incompleta, já que o rock por si só é a representação do que uma guitarra pode fazer.

Entretanto, lembre-se que o baixo é um instrumento de corda e se aprendemos uma coisa com o rock é que Lemmy Kilmister fez do seu baixo a sua guitarra, contudo, não a protagonista como é o caso do "Royal Blood".

Eles passaram aqui no Brasil no Rock In Rio de 2015 (se não me engano) e foi com toda certeza uma das melhores coisas que podiam ter aparecido por lá, fazendo um apresentação em que nada devia a medalhões como o Metallica e demonstrando que o rock n roll não está nada morto como insistem em dizer em um senso comum.

Tá chegando. No dia 16 desse mês a dupla lançará seu segundo álbum "How Did We Get So Dark", e o último single "I Only Lie When I Love You" lançado nessa semana em seu canal, me deixou a certeza que vem por aí outro grande tapa na orelha da banda que descobri graças ao Spotify.



O que passa pelos meus fones #144 - Prophets of Rage

Sabe aquela máxima de que você pode até fugir da política mas a política não foge de você?

Nesses tempos tão conturbados e tão malucos, a música é a voz que se levanta contra qualquer injustiça, e vozes como o "Prophets of Rage" chegam na hora certa para dizer o que queremos ouvir e gritar o que queremos dizer.

Super banda reunindo integrantes do Rage Against the Machine (menos Zack de la Rocha, claro) e dos grupos Public Enemy e Cypress Hill, no começo do ano colocou aí no mercado o álbum single que reunia além da música título "The Party's Over" e da faixa que nomeia a banda, outras três ao vivo que são como grandes jams como "No Sleep Till Cleveland" do Beastie Boys; mas o seu debut de fato será lançado no próximo dia 15 de setembro e a banda escolheu nada menos que Micheal Moore ara dirigir seu primeiro clipe.

Escolha nada incidental essa, já que o gordinho Micheal Moore é conhecido pelo seu largo ativismo em documentários como "Tiros em Columbine" e "Fahrenheit 9/11" apresentando fatos e desmascarando vítimas defensoras do "american way of life".

Com uma pegada clara do Rage Against The Machine (e sem vergonha nenhuma de admitir isso), consigo ver no "Prophets of Rage" uma cara e uma união de vozes.

O rap, o rock, a direção... você.

"A resistência não pode parar"


O que passa pelos meus fones #143 - Foo Fighters

A última postagem dessa seção data do mês dois... Nem imaginava que fazia tanto tempo assim.

Sim, gostei de "Sonic Highways", o último trabalho dos caras, mesmo ele desviando um pouco do conceito que o Foo Fighters tomou pra si, principalmente nos clipes, daquele rock n roll puro e descontraído. Era uma tradição. Não era simplesmente os caras tocando, começando lá por "Big Me" com a brincadeira com o Mentos e tal, passando por "Everlong", "Learning To Fly", "White Limo", "Walk" e por aí vai.

Já em "Sonic Highways" o Foo Fighters fez sua música ficar mais "grandiosa" com um disco que era mais conceitual e com documentário e tudo... Bom, mesmo tendo me agradado, essa aventura não tinha a doce loucura que o fantástico "Wasting Light" tinha. E senti falta do clipe tosco que sempre tinha. Com o novo single "Run" vejo uma luz de que eles resgataram um pouco isso, e como isso é legal!

Todos fantasiados de velhinhos com direito a mosh e peitos, terminando com uma dancinha à la "Thriller".

Sejam bem vindos de volta!

Resenha Série: House Of Cards (5ª Temporada)


Assistir a "House of Cards" é quase que uma terapia alavancada por um plot incidental da realidade.

"Isso é tão House of Cards".

Claro que seria muita pretensão minha dizer que a série resolveu tomar os caminhos que tomou inspirada em fatos que estão acontecendo por aqui, mas é acertado dizer que é essa quinta temporada foi inspirada em grande parte na bagunça que o trio parada dura Putin, Trump, qualquer ditador do oriente médio, Temer e etc provocam de inspiração só de existirem na inabilidade que a política por si só é capaz de ter.

Vimos nas temporadas anteriores que a Frank Underwood (Kevin Spacey) manipulou e moldou a democracia para si mesmo, saindo de congressista até presidente, provando acertadamente que qualquer sistema político que tenhamos é fundamentado em apenas um objetivo: poder; e provando por A mais B que a política é como o sistema imobiliário, simplesmente uma questão de "localização". Queira ou não, aceitar essa "tragicomedia contemporânea" acabe doendo menos.

Então como fazer política sem acabar se ajoelhando perante a um sistema? Frank Underwood não sabe e nem quer saber, ele entendeu essa jogada e tramou com as cartas que tinha na mão, sorrateiramente, roubando os montes alheios e superando esse sistema quase que impenetrável. E é interessante perceber que o filha da puta é carismático exatamente por isso.

Como o roteiro e a simbologia são o norte de "House of Cards", foi preocupante ver que Beau Willemon afastou do cargo de showrunner. Porém nessa quinta temporada "House of Cards" manteve sua qualidade, e com o perdão do trocadilho, é com o cargo ocupado pela dupla Melissa James Gibson e Frank Pugliese que a série (principalmente em sua segunda parte) é quem resolveu dar as cartas, deixando de florear o mundo político, de certa forma sem tempo estabelecido, para se tornar o que ele é agora geopoliticamente - uma decisão ótima por sinal.

Talvez sendo a temporada em que o "ame ou odeie" se aplique com mais afinco, já que em contrapartida ao casal Underwood os coadjuvantes que tanto auxiliaram a série em suas outras temporadas tem roteiros um pouco mais apagados e até mal resolvidos (caso claro da diplomata Catherine Durant (Jayne Atkinson) ou mesmo sobre o "sumiço" de Will Conway (Joel Kinnaman) após a conturbada eleição, logo se entende que como o foco foi para os Underwood (e cá entre nós, a série sempre foi deles), acabou sendo até compreensível que isso tenha acontecido; até porque a megalomania de Frank o deixa sempre a dez passos a frente inutilizando os esforços de Will, Tom Hammerschidt (Boris McGiver), Alex Romero (James Martinez) na caçada e de nós, surpreendendo até sua esposa Claire (Robin Wright) - esta que vai deixando claro que está cansada de permanecer como coadjuvante na hora H quando a interinidade "supostamente" cai em seu colo; supostamente, pois como disse, Frank dá as cartas aqui. Mas até quando?

Com uma fotografia e montagem lindas que demonstram o isolamento que os dois sofrem e buscam em um ambiente cada vez mais instável, mostrando uma Casa Branca que fica cada vez mais escura e vazia por causa da paranoia que abala até o relacionamento entre Claire e Thomas Yates (Paul Sparks) e a amizade de Frank com Doug Stamper (Micheal Kelly) - uma razão para este, que fica tão clara a medida em que vemos a sua vida totalmente desmoronada.

A verdade é que quando Frank não estava de brincadeira quando despediu de nós dizendo na quarta temporada dizendo que "nós não nos submetemos ao terror, nós fazemos o terror". Agora esse nós tomou outro sentido com o "minha vez" dito por Claire.

Estabelecendo uma ditadura em plena democracia, a série foca de vez a megalomania de Frank pelo poder. E claramente se inspirando num um mundo cada vez mais imprevisível, os showrunners continuaram a escalada natural de Claire que deixou de ser uma mera primeira dama para uma figura política em ascensão que quebra a parede em certo ponto da trama (nada mais simbológico que isso), nos entregando uma história que consegue ainda ser surpreendente, retomando um fôlego que víamos nas temporadas anteriores e parecendo menos arrastada que a morna quarta temporada que só tomou um rumo de verdade em seus episódios finais.

Resta saber se a briga será tão polarizada que vai parecer um duelo para quem vai ficar com o controle remoto dessa vez, se for assim, que o arco se encerre no sexto ano.

Resenha Série: Flash (3ª Temporada)


A terceira temporada de Flash é baseada em causas e consequências (nome do episódio 3x21 da série).

A "burrada" chamada "Flashpoint" que Barry Allen (Grant Gustin) criou por causa do chororô do final da segunda temporada após Zoom ter matado seu pai (John Wesley Shipp), tentando dar um sentido à sua própria existência ao usar de seu poder pra voltar no tempo reencontrando seu pai recém-assassinado e sua mãe que o Flash Reverso tirou como se nada tivesse acontecido, ensinou a ele um significado de família que essa emoção o cegou. Bom, nas nossas mentes, pois a motivação mais forte pra ele voltar a realidade da qual ele fugiu era a de que ele percebeu (mentira, o Flash Reverso esclareceu isso) de que a morte da sua mãe era o ponto chave pra ele ter se tornado o que ele é, o que em virtude da sua decisão, obviamente memórias deste tempo foram se apagando; e naquele sentimento de perda daquilo que tinha, foi lá o Barry pedir ao Flash Reverso daquela época (ele não tinha sido apagado?) para matar sua mãe e cumprir a sua "missão".

Cheia de furos, essa terceira temporada foi aquela em que o Flash lidou com as consequências em que o clichê de ele "crescer como herói" desafiando seu ódio provocado pela dor que permaneceu, porém das piores formas possíveis.

Na abertura mais tradicional da série, Barry se auto-intitula como "o homem mais rápido da Terra", bom, nenhuma série gerou mais memes que esta e com razão. Numa trama que se assemelha às duas anteriores no ponto de que sempre há um homem mais rápido que ele, o lance é que o próprio Barry criou Savitar ao ter criado "um presente alternativo", isto é, o Flashpoint. Resumindo, o Barry fez merda e vai ter que consertar isso.

Retornando a seu tempo, coisas que surgiram no Flashpoint em que ele criou acabaram permanecendo fazendo a gente lembrar do saudoso Doc e seu desespero ao ver Marty McFly carregar aquela malfadado almanaque que transformou Biff em um ricaço. "Qualquer alteração causa consequências catastróficas no tempo"; o maior alerta de Doc passa a fazer sentido quando a merda que Barry fez por causa de seu próprio ego acaba vindo à tona, tanto no irmão agora morto de Cisco (Carlos Valdes) e no fato de Caitlin Snow (Danielle Panabaker) ter virado a Nevasca de fato, mas principalmente no que se criou com toda essa confusão: evil Aécio Neves e Savitar.

Mas numa temporada em que a sub-trama se arrasta sob a premissa de que Iris (Candice Patton) irá morrer pelas mãos de Savitar em 2024 e o Flash terá que evitar que seu amor caia nessa predestinação. a trama simplesmente é empurrada com a barriga por mais de quinze episódios com todos simplesmente parados ali na Star Labs aguardando que este dia chegue tentando alterar pequenos fatos pra que ele não ocorra desta forma, porém, chegando a uma solução rasa e simplista, não só pelo tratamento dado com a revelação de quem é o Savitar mas como da descartabilidade de certos personagens e a resolução deles, simplesmente criando engenhocas e relembrando outras pra salvar a pele de Iris - isto numa temporada em que Cisco/Vibro virou uma solução overpower de tudo que ocorria e com uma solução que fez a gente perceber que os metas que Savitar sussurrava nos ouvidos eram simplesmente peões no jogo dos dois.

Talvez numa temporada de dez episódios em que essa arrastada trama em que as melhores partes eram aquelas em que se esquecia-se disso, como no encontro musical de Barry e Kara que só existiu pra forçar um crossover entre as séries e angariar audiência (episódio até divertido), personagens como Cisco, Nevasca e o próprio Savitar perderam sua profundidade (este último especialmente em seu plano B totalmente desastrado) e até o Flash, que derrotou Savitar fazendo algo que ele poderia ter feito a dez episódios atrás. E não existe pior sentimento que esse numa série aonde percebemos que ela alongou muito mais do que deveria.

Um lado bom é que essa confusão temporal supostamente acabou numa temporada de morna pra fria.

Um lado ruim é o cliffhanger que se criou para a quarta temporada com Barry indo para a prisão por seus atos até me fazendo vislumbrar os engravatados empolgados alardeando de que "essa temporada do Flash será a maior de todas", me fazendo ter saudades da divertida saga entre o Barry e o Flash Reverso/Eobard Thawne.

Bom, a Força da Aceleração não perdoa, porque quando a gente critica é porque sabe que a série pode ser muito mais do que está entregando.

Resenha Documentário: Five Came Back


Frank Capra, George Stevens, John Ford, John Huston e William Wyler. Esses cinco diretores surgiram na mesma época e todos foram convocados para trabalhar junto ao exército norte-americano em tempos de guerra, inicialmente focando em produções documentais, de treinamento ou quaisquer registros junto ao público militar que ajudariam a delinear a história no período.

Se no primeiro episódio "The Mission Begins" o ritmo é moroso comparado a sua conclusão, é porque essa parte tem por responsabilidade contextualizar o cenário em que os EUA até o ataque em Pearl Harbour não assumia responsabilidade alguma diante ao domínio nazista na Europa, quer dizer, o problema deles deveria ser resolvido entre eles. Mas diante ao ataque japonês, tudo mudou. E aí começamos a ver o poder real de "Five Came Back" explicando porque o cineastas da época ajudaram a história ser escrita com um H maiúsculo como a conhecemos hoje em dia e a própria sétima arte, com a existência de obras mais contemporâneas como "A Lista de Schindler" e pós-guerra como "O Diário de Anne Frank", por exemplo.

Com o início do envolvimento norte-americano na guerra, os renomados cineastas são convocados para educar e propagandear os atos do país na guerra tendo a responsabilidade inicial de incutir na cabeça dos norte-americanos quem era bom e mau naquela situação. Era o nós contra eles, e é motivo de orgulho e comoção a entrega que cada um teve com as filmagens. Foi muito interessante ver como os renomados cineastas lidaram com os desafios de produção e de roteiro numa época de pura pressão, onde era de fundamental importância entender o que os alemães tinham entendido e tinham como maior força: as ideias. Frank Capra aliás, assistiu ao documentário nazista “O Triunfo da Vontade”, de Leni Riefenstahl, e de tão impressionado, intimamente, achava que era impossível vencer os alemães naquela altura.

Mas a medida que a guerra foi avançando e os diretores entendiam melhor o que estava se passando e do porquê que era importante participar daquele confronto, no segundo episódio "Combat Zones" o poder de crítica do cinema também ganha forma, e isso se nota claramente na parte em que o documentário nos conta do esforço dos militares naquela altura em fomentar o sentimento nacionalista, mas não de direcionar o ódio a todo povo alemão, porém, sem o mesmo cuidado com os japoneses. Não era tão nós contra eles e a importância de derrotar o mal não deveria ser a todo custo. Isto, ganhando ares hipócritas na parte do documentário em que mostra o impacto social do docudrama "The Negro Soldier", mostrando como os "inimigos destituídos de humanidade" de certa forma também residia nos soldados brancos que se não tratavam com igualdade os soldados negros - algo que obviamente não passava desapercebido principalmente pelo imigrante Capra e o judeu Wyler, sumariamente silenciados pela hierarquia militar na época.

Dá pra traçar algum paralelo com o agora né?

Certo que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mas se graças ao bom bule voador não nos matamos um aos outros, é porque o sentimento nacionalista acaba no final das contas sendo superado pela humanidade que ainda reside em cada um. E em "Five Came Back", principalmente no terceiro e último episódio "The Price of Victory", entendemos o quão importante foram o papel destes cineastas de em favor à arte demonstrar de forma neutra e direta as mazelas que a guerra trouxe diferentemente aos dois lados, ajudando a construir muito da moralidade que ainda temos hoje.

As imagens dos campos de concentração em Dachau feitas por Stevens foram de fundamental importância para o histórico julgamento de Nuremberg, revelando para o mundo um fato que jamais será esquecido e mudando os cineastas para sempre, refletindo diretamente em seus filmes até o final de suas vidas mas ainda capazes ainda de gerar obras primas elogiadas e premiadas como "Let There Be Light", retratando com fieldade a luz humana que era capaz de ascender diante à descrença de que podíamos ainda ser melhores naquela desolação toda.

Talvez se "Five Came Back" tivesse sido dirigido por um norte-americano e não pelo francês Laurent Bouzereau, não teria tido o mesmo impacto ao contar como Capra, Ford, Huston, Wyler e Stevens foram de fundamental importância para o que o cinema é hoje, influenciando diretores e fundamentalmente pessoas como Guillermo Del Toro, Steven Spielberg, Paul Greengrass, Francis Ford Coppola e Lawrence Kasdan, que sabem do poder que está em suas cabeças em propagandear uma ideia, mas também do poder do cinema em sua capacidade de educar e documentar a verdade,

Resenha Série: Master of None (2ª Temporada)


O que vamos assistir agora? Aposto que você ficou pela página da Netflix rolando os pôsteres para o lado, verificando de um a um, adicionando na sua lista para ver "mais tarde" e avaliando aquele filme que você já assistiu para melhorar a curadoria da IA do serviço, porém, ainda assim você se pergunta: "o que vou assistir agora?" - e depois de mais de uma hora passada você acaba não vendo é nada. Nesse ritual quase catártico, você já deve ter percebido o bolo de produções originais da Netflix e refletido que em quase 100% das vezes elas acabam cercadas pela nossa indiferença, infelizmente em certos casos porque pelos seus olhos pode passar "Master of None".

Nesse bolo temos invariavelmente séries que ganham o público e a moda como se fossem praticamente moldadas para nós, vide "House of Cards", "Stranger Things" e até o tão falado "13 Reasons Why" (que não tive a menor vontade de ver), e outras que devido a liberdade que o serviço por si só dá ao seu criador por não exigir praticamente nenhuma contrapartida - algo que é quase imediato - dificilmente estariam na televisão aberta norte-americana atual. E recomendado por uma amiga, "Master of None" foi aquela que da forma mais verdadeira preencheu meu coração e cessou qualquer "zapeada" a mais que pudesse dar pela Netflix, com sua primeira temporada servindo como um atestado de arrependimento pra me fazer prestar mais atenção a essas produções originais (como curta e bela "River").

Criada pelo comediante americano e filho de indianos Aziz Ansari, na série temos como protagonista Dev Shah, um ator de meia-idade de ascendência hindu como Aziz e que como nós passa pelo drama nosso de todo dia numa cidade grande, procurando trabalho, se divertindo com os amigos e tendo problemas com o amor - sempre dividindo a paixão pela comida, seja na convívio social ou profissional com o Chef Jeff (Bobby Cannevale) nessa segunda temporada.

Até aí normal, contudo, a forma como ele e seu parceiro na produção (Alan Yang) tratam destes temas é simplesmente a melhor coisa vista na televisão nos últimos anos. Indo da Itália a Nova York, de Fellini em "The Thief" (S02E01) a Woody Allen em "New York, I Love You" (S02E06), a dupla constrói e conta situações à la Seinfield (obra máxima das sitcons) abordando assuntos polêmicos e tão quanto corriqueiros, como aquele "Thanksgiving" "S02E08), que é dedicado quase que integralmente a Denise e seu processo de aceitação sua e da sua família sobre sua condição sexual; ou em "Religion" (S02E03) em que Dev discute crenças com sua família girando em torno a carne de porco.

Aliás, nessa segunda temporada da série, Aziz e Alan em dez episódios percorrem um tema central (o relacionamento de Dev e Francesca, interpretada pela bela e talentosa Alessandra Mastronardi) mas construindo a série na base de esquetes mais isoladas ao contrário da primeira temporada, assim tirando o foco do Dev propriamente pra proporcionar uma maior liberdade ao Aziz. É só observar o que a gente vê em "First Date" (S02E04) sobre da fugacidade dos aplicativos de relacionamento como o Tinder, e em "Le Nozze" (S02E02) que se trata do duro processo de aceitação no amor. Ah como dá vontade de dar um abraço no Arnold. Quer, dizer em todo elenco que enche a série de carisma e só abrilhanta seu roteiro e execução.

E falando de roteiro, qualquer produção é bem sucedida se é aquela em que esse é escrita se aproximando de seu espectador; seja brincando com o fantasioso, com a realidade que ele gostaria de estar ou simplesmente falando sobre a rotina. Precisamos trocar experiências e ver celebrado na tela algo da qual celebramos ou passamos, e "Master of None", de novo, trata o comum de forma primorosa, a romantizando e a melancolizando da forma como deve ser; como no BRILHANTE episódio de quase uma hora "Amarse Un Po" (S02E09) - assim em letras garrafais mesmo.

Inspirada em Seinfield e principalmente em Woody Allen (sendo bem menos neurótico que ele), "Master of None" é simples e carismática, trazendo uma fotografia e atuações merecedoras de um abraço - ah como é bom ver Arnold, Denise e Brian. Todos minorias, todos com seus dramas internos e todos com o desafio de seu processo de aceitação constante que todos nós passamos.

Curiosamente, foi difícil de escrever sobre "Master of None"; pois ela é uma serie sobre o tudo e o nada. Sobre eu e você.

Isso é uma das coisas que pode acontecer daqui a 1 bilhão de anos

Ansiamos por respostas pra explicar o presente, passado e futuro, especialmente o futuro; e quando nos deparamos com algo que aconteceu ou acontece o termo mais usado é "deus quis". Quiromancia, astrologia e milhares de outras "gias" dedicadas a dizerem que há sempre o algo a mais que nos entendemos e não temos nenhum controle, denunciam como gostamos do destino para explicar porque aquilo aconteceu como se a escolha que nós tomamos pra nós fosse inevitável - talvez nessa sociedade moderna algumas são realmente - numa misto de conforto e curiosidade aliviando a nossa culpa.

A futurologia é uma dessas "gias", mas talvez delas a mais embasada ao usar a base científica e estatística para tentar prever uma POSSIBILIDADE sobre que está vindo em direção a nós, não só como mera curiosidade mas talvez como um alerta também. Bom, o aquecimento global não nos deixa mentir e um belo "eu avisei" cabe aí. Então não adianta bancar o sabichão ao tentar questionar se a ciência pode prever o que você irá almoçar amanhã se nem consegue prever o tempo com precisão, já que a palavra mesmo explica tudo isso: previsão.

Viveremos nesse planetinha malfadado por mais uns milhares de anos se nada acontecer graças a nós mesmos, isso é certo, e à la melhores momentos de History Channel o canal do Você Tubo RealLifeLore resolveu especular sobre o nosso futuro daqui a 1 fucking bilhão de anos!

Muito? Sim, tempo para um caralho. Mas é interessante assistir e pensar que algumas coisas realmente fazem sentido se continuarmos nessa toada, de que por exemplo daqui 20 mil anos 99% dos idiomas estarão extintos. Oras, globalização não é isso? 

Uma coisa é certa, cedo ou tarde teremos que procurar outra casa para viver, seja porque nós mesmos acabamos com esse planeta ou porque ele continuará evoluindo em outro caminho.

Acompanhe no vídeo abaixo ativando as legendas no português brasileiro nacional:


Via B9

R.I.P Chris Cornell


Infelizmente de tempos em tempos pipoca a morte de alguém, e entre esses tempos na latrina que é a caixa de comentários de qualquer site de notícias daqui do Brasil pipoca o "convite" para pessoas destilarem seu preconceito, ou porque não conhecem e são incapazes de ficarem quietos ou porque são os representantes da família brasileira e portanto, da moral.

Foi confirmado a causa da morte repentina de Chris Cornell aos 52 anos de idade: suicídio. E não é preciso procurar muito para ler comentários do tipo de drogado e de "falta de deus no coração". Queria saber o que define a pessoa que diz que os outros tem "essa falta de deus". Seria a explicação básica e mais simples? Ou eles buscam demonstrar a superioridade por terem um guia moral que os fazem se julgarem automaticamente corretos, ou isso denuncia a incapacidade de estabelecer essa moral por si mesmo como ser racional que se é? Creio que a verdade é que como seres humanos todos somos falhos e estamos tão vulneráveis a tristeza como a alegria.

Mas tentando sair desse âmbito da religião, é lamentável que as pessoas não tenham o mínimo de empatia e respeito em troca de esteriótipos baratos e lamentáveis que em nada servem para se estabelecer minimamente como opinião.

Chris Cornell se tornou o expoente de uma geração do começo dos anos 90 e a maior voz delas. Indo do grave ao agudo sem dificuldade alguma, pudemos testemunhar isso no Soundgarden e constantemente se renovou. Se antes era a sua música era mais ligada ao heavy metal de um Black Sabbath no Soundgarden, flertou fortemente com o melódico e o pop no Audioslave com os integrantes restantes do Rage Against The Machine e hoje em dia fazia shows apenas com um banquinho e um violão nos apresentando sua voz potente e nada mais com a delícia de um folk; ainda retornando a um Soundgarden que tinha shows agendados e um álbum para vir futuramente e músicas da carreira solo tanto para "Cassino Royale" da série de James Bond quanto para o "Vingadores". 

Um triste fim de um homem talentoso e conhecedor de boa música. E posso falar como alguém que não correrá atrás de sua discografia após a sua evidenciada morte, mas como alguém que conhecia seu trabalho - principalmente do Soundgarden e do saudoso Temple of the Dog, ironicamente formado com Eddie Vedder para homenagear um amigo falecido dele na época.

Antes de qualquer julgamento que as pessoas adoram fazer, é bom que se diga: ninguém é capaz de entender as voltas que temos nas nossas cabeças e as peças que elas nos pregam independentemente do que se tem na vida, aliás tudo na vida pode ser subjetivo.

Sim, essa vida pode ser muito bem feita de aparências, como ele aparentava estar feliz e satisfeito durante seu último show e como confidenciaram pessoas próximas antes de termos esse triste desfecho.

Esse triste acontecimento é mais uma das lições que a vida nos dá sobre como ter empatia. 

Fiquem atentos com a depressão.

Her é aquele filme para MIM e para VOCÊ


Certeza, nove entre dez postagens em páginas românticas no Facebook - independentemente do teor delas - é daquela que trata sobre a nossa sofrência diária do "amor idealizado". Aquele cara ou garota que compreenda o verdadeiro problema das coisas, entenda o valor que nós temos, responda instantaneamente as mensagens do WhatsApp que a gente manda para ontem, seja perfeitamente compreensível com os ciúmes, e tenha os mesmos gostos que nós - isto é, empunhando um sabre de luz se formos tratar do público a qual pertenço.

Entretanto se são as imperfeições que fazer o ser humano ser autêntico e por elas determinamos o que é certo e errado para nós e da forma em que agimos com os outros, isto é, a velha empatia que costumeiramente esquecemos de praticar - e aí voltamos ao ponto das imperfeições. Viu? Eu e você somos nada mais que um círculo vicioso de erros e acertos, consigo e com os outros. Se a perfeição é inalcançável, por quê então devemos idealiza-la?

Essa é uma pergunta que intriga a nós mesmos e parte delas é confrontada e questionada no espetacular longa "Her". Disponível na Netflix desde o começo do mês (acredito eu, me corrijam se eu estiver errado) e dirigido e roteirizado por Spike Lee lida com uma questão atual e permanentemente presente: a solidão.

Agora apoiada na tecnologia, o amor idealizado mais comumente exposto em páginas de livros e letras de músicas, tem na internet agora sua maior voz e sua maior força. Agora acreditamos que nosso grito será ouvido e compreendido - mesmo que gritemos para ninguém no final das contas -, afinal, a tecnologia encurta distâncias e aquele amigo ou interessado crie coragem e disposição para perguntar como você está (e eu admito, já tive essa fase; quem nunca?). Porém, é justamente por essa busca e satisfação do ter o seu desejo atendido que caímos na armadilha de idealizarmos somente o que é perfeito para nós e esquecer não só a própria satisfação com o que é, mas sobretudo em se preocupar na palavra difícil que é conviver.

Num mundo futurista que não diz a data e de uma IA extremamente avançada, o personagem Theodore (magistralmente interpretado por Joaquin Pheonix) é um ser solitário que encontra em uma OS com voz de Scarlett Johansson a solução de seus problemas. Já tratei isso aqui na resenha de "Her" que fiz aqui pro Descafeinado. Mas sintetizando novamente, essa OS - como aquela que em menor grau está nos servindo nos Androids de todos os dias - aprende com Theodore seus gostos e ele se apaixona por Samantha. No entanto como inteligência artificial que é, ela se desenvolve como qualquer outro tipo de inteligência e passa a querer outra realidade. No caso com outras OSs como ela. De forma simples e clara, Theodore procurou atender sua necessidade e não mudou, sua amada aprendeu e o deixou para trás. Artificial ou não, inteligência é inteligência, e a natural arte do ser humano em falhar na empatia e reflexão sobre si mesmo nos leva a pensar na extinção ou na quebra de relacionamento mesmo.

Parece até proposital a escalação da Scarlett Johansson para fazer a voz da Samantha se formos pensar em que ela é o símbolo do imaginário dos nerds que molham as calças quando veem a Viúva Negra na telona. E aí Adam Sandler vem a mente.

Seus filmes ruins são tão incompreensivelmente vistos por serem nada mais que baseados no esteriótipo do "cara fracassado ou azarado que não sabe falar com garotas acabar ficando com aquela garota gostosona do filme", em outras palavras a Scarlett Johansson. Tais são tão vistos por sermos esse cara ou essa garota, são tão vistos por fazerem rir de nós mesmos - mesmo que essa piada seja bem ruim. Adam Sandler e Netflix sabem disso, mesmo que incidentalmente e aí temos a notícia da renovação do contrato do ator com o serviço de streaming por mais quatro filmes. É simplesmente "esfregar" na cara a verdade.

É comum vermos por aí as pessoas praticarem a máxima do "sou assim e ninguém, nem nada vai me mudar". Sim, até concordo que isto é autenticidade no exercer da liberdade de opinião, mas como vemos na polarização política por exemplo, você está mais fadado a ser um idiota do que alguém ponderado. Melhor então ser "acusado de ficar em cima do muro" e parar de esperar que o garota dos meus sonhos seja aquela que empunhe um sabre de luz.