Resenha Série: Flash (3ª Temporada)


A terceira temporada de Flash é baseada em causas e consequências (nome do episódio 3x21 da série).

A "burrada" chamada "Flashpoint" que Barry Allen (Grant Gustin) criou por causa do chororô do final da segunda temporada após Zoom ter matado seu pai (John Wesley Shipp), tentando dar um sentido à sua própria existência ao usar de seu poder pra voltar no tempo reencontrando seu pai recém-assassinado e sua mãe que o Flash Reverso tirou como se nada tivesse acontecido, ensinou a ele um significado de família que essa emoção o cegou. Bom, nas nossas mentes, pois a motivação mais forte pra ele voltar a realidade da qual ele fugiu era a de que ele percebeu (mentira, o Flash Reverso esclareceu isso) de que a morte da sua mãe era o ponto chave pra ele ter se tornado o que ele é, o que em virtude da sua decisão, obviamente memórias deste tempo foram se apagando; e naquele sentimento de perda daquilo que tinha, foi lá o Barry pedir ao Flash Reverso daquela época (ele não tinha sido apagado?) para matar sua mãe e cumprir a sua "missão".

Cheia de furos, essa terceira temporada foi aquela em que o Flash lidou com as consequências em que o clichê de ele "crescer como herói" desafiando seu ódio provocado pela dor que permaneceu, porém das piores formas possíveis.

Na abertura mais tradicional da série, Barry se auto-intitula como "o homem mais rápido da Terra", bom, nenhuma série gerou mais memes que esta e com razão. Numa trama que se assemelha às duas anteriores no ponto de que sempre há um homem mais rápido que ele, o lance é que o próprio Barry criou Savitar ao ter criado "um presente alternativo", isto é, o Flashpoint. Resumindo, o Barry fez merda e vai ter que consertar isso.

Retornando a seu tempo, coisas que surgiram no Flashpoint em que ele criou acabaram permanecendo fazendo a gente lembrar do saudoso Doc e seu desespero ao ver Marty McFly carregar aquela malfadado almanaque que transformou Biff em um ricaço. "Qualquer alteração causa consequências catastróficas no tempo"; o maior alerta de Doc passa a fazer sentido quando a merda que Barry fez por causa de seu próprio ego acaba vindo à tona, tanto no irmão agora morto de Cisco (Carlos Valdes) e no fato de Caitlin Snow (Danielle Panabaker) ter virado a Nevasca de fato, mas principalmente no que se criou com toda essa confusão: evil Aécio Neves e Savitar.

Mas numa temporada em que a sub-trama se arrasta sob a premissa de que Iris (Candice Patton) irá morrer pelas mãos de Savitar em 2024 e o Flash terá que evitar que seu amor caia nessa predestinação. a trama simplesmente é empurrada com a barriga por mais de quinze episódios com todos simplesmente parados ali na Star Labs aguardando que este dia chegue tentando alterar pequenos fatos pra que ele não ocorra desta forma, porém, chegando a uma solução rasa e simplista, não só pelo tratamento dado com a revelação de quem é o Savitar mas como da descartabilidade de certos personagens e a resolução deles, simplesmente criando engenhocas e relembrando outras pra salvar a pele de Iris - isto numa temporada em que Cisco/Vibro virou uma solução overpower de tudo que ocorria e com uma solução que fez a gente perceber que os metas que Savitar sussurrava nos ouvidos eram simplesmente peões no jogo dos dois.

Talvez numa temporada de dez episódios em que essa arrastada trama em que as melhores partes eram aquelas em que se esquecia-se disso, como no encontro musical de Barry e Kara que só existiu pra forçar um crossover entre as séries e angariar audiência (episódio até divertido), personagens como Cisco, Nevasca e o próprio Savitar perderam sua profundidade (este último especialmente em seu plano B totalmente desastrado) e até o Flash, que derrotou Savitar fazendo algo que ele poderia ter feito a dez episódios atrás. E não existe pior sentimento que esse numa série aonde percebemos que ela alongou muito mais do que deveria.

Um lado bom é que essa confusão temporal supostamente acabou numa temporada de morna pra fria.

Um lado ruim é o cliffhanger que se criou para a quarta temporada com Barry indo para a prisão por seus atos até me fazendo vislumbrar os engravatados empolgados alardeando de que "essa temporada do Flash será a maior de todas", me fazendo ter saudades da divertida saga entre o Barry e o Flash Reverso/Eobard Thawne.

Bom, a Força da Aceleração não perdoa, porque quando a gente critica é porque sabe que a série pode ser muito mais do que está entregando.

Resenha Documentário: Five Came Back


Frank Capra, George Stevens, John Ford, John Huston e William Wyler. Esses cinco diretores surgiram na mesma época e todos foram convocados para trabalhar junto ao exército norte-americano em tempos de guerra, inicialmente focando em produções documentais, de treinamento ou quaisquer registros junto ao público militar que ajudariam a delinear a história no período.

Se no primeiro episódio "The Mission Begins" o ritmo é moroso comparado a sua conclusão, é porque essa parte tem por responsabilidade contextualizar o cenário em que os EUA até o ataque em Pearl Harbour não assumia responsabilidade alguma diante ao domínio nazista na Europa, quer dizer, o problema deles deveria ser resolvido entre eles. Mas diante ao ataque japonês, tudo mudou. E aí começamos a ver o poder real de "Five Came Back" explicando porque o cineastas da época ajudaram a história ser escrita com um H maiúsculo como a conhecemos hoje em dia e a própria sétima arte, com a existência de obras mais contemporâneas como "A Lista de Schindler" e pós-guerra como "O Diário de Anne Frank", por exemplo.

Com o início do envolvimento norte-americano na guerra, os renomados cineastas são convocados para educar e propagandear os atos do país na guerra tendo a responsabilidade inicial de incutir na cabeça dos norte-americanos quem era bom e mau naquela situação. Era o nós contra eles, e é motivo de orgulho e comoção a entrega que cada um teve com as filmagens. Foi muito interessante ver como os renomados cineastas lidaram com os desafios de produção e de roteiro numa época de pura pressão, onde era de fundamental importância entender o que os alemães tinham entendido e tinham como maior força: as ideias. Frank Capra aliás, assistiu ao documentário nazista “O Triunfo da Vontade”, de Leni Riefenstahl, e de tão impressionado, intimamente, achava que era impossível vencer os alemães naquela altura.

Mas a medida que a guerra foi avançando e os diretores entendiam melhor o que estava se passando e do porquê que era importante participar daquele confronto, no segundo episódio "Combat Zones" o poder de crítica do cinema também ganha forma, e isso se nota claramente na parte em que o documentário nos conta do esforço dos militares naquela altura em fomentar o sentimento nacionalista, mas não de direcionar o ódio a todo povo alemão, porém, sem o mesmo cuidado com os japoneses. Não era tão nós contra eles e a importância de derrotar o mal não deveria ser a todo custo. Isto, ganhando ares hipócritas na parte do documentário em que mostra o impacto social do docudrama "The Negro Soldier", mostrando como os "inimigos destituídos de humanidade" de certa forma também residia nos soldados brancos que se não tratavam com igualdade os soldados negros - algo que obviamente não passava desapercebido principalmente pelo imigrante Capra e o judeu Wyler, sumariamente silenciados pela hierarquia militar na época.

Dá pra traçar algum paralelo com o agora né?

Certo que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mas se graças ao bom bule voador não nos matamos um aos outros, é porque o sentimento nacionalista acaba no final das contas sendo superado pela humanidade que ainda reside em cada um. E em "Five Came Back", principalmente no terceiro e último episódio "The Price of Victory", entendemos o quão importante foram o papel destes cineastas de em favor à arte demonstrar de forma neutra e direta as mazelas que a guerra trouxe diferentemente aos dois lados, ajudando a construir muito da moralidade que ainda temos hoje.

As imagens dos campos de concentração em Dachau feitas por Stevens foram de fundamental importância para o histórico julgamento de Nuremberg, revelando para o mundo um fato que jamais será esquecido e mudando os cineastas para sempre, refletindo diretamente em seus filmes até o final de suas vidas mas ainda capazes ainda de gerar obras primas elogiadas e premiadas como "Let There Be Light", retratando com fieldade a luz humana que era capaz de ascender diante à descrença de que podíamos ainda ser melhores naquela desolação toda.

Talvez se "Five Came Back" tivesse sido dirigido por um norte-americano e não pelo francês Laurent Bouzereau, não teria tido o mesmo impacto ao contar como Capra, Ford, Huston, Wyler e Stevens foram de fundamental importância para o que o cinema é hoje, influenciando diretores e fundamentalmente pessoas como Guillermo Del Toro, Steven Spielberg, Paul Greengrass, Francis Ford Coppola e Lawrence Kasdan, que sabem do poder que está em suas cabeças em propagandear uma ideia, mas também do poder do cinema em sua capacidade de educar e documentar a verdade,

Resenha Série: Master of None (2ª Temporada)


O que vamos assistir agora? Aposto que você ficou pela página da Netflix rolando os pôsteres para o lado, verificando de um a um, adicionando na sua lista para ver "mais tarde" e avaliando aquele filme que você já assistiu para melhorar a curadoria da IA do serviço, porém, ainda assim você se pergunta: "o que vou assistir agora?" - e depois de mais de uma hora passada você acaba não vendo é nada. Nesse ritual quase catártico, você já deve ter percebido o bolo de produções originais da Netflix e refletido que em quase 100% das vezes elas acabam cercadas pela nossa indiferença, infelizmente em certos casos porque pelos seus olhos pode passar "Master of None".

Nesse bolo temos invariavelmente séries que ganham o público e a moda como se fossem praticamente moldadas para nós, vide "House of Cards", "Stranger Things" e até o tão falado "13 Reasons Why" (que não tive a menor vontade de ver), e outras que devido a liberdade que o serviço por si só dá ao seu criador por não exigir praticamente nenhuma contrapartida - algo que é quase imediato - dificilmente estariam na televisão aberta norte-americana atual. E recomendado por uma amiga, "Master of None" foi aquela que da forma mais verdadeira preencheu meu coração e cessou qualquer "zapeada" a mais que pudesse dar pela Netflix, com sua primeira temporada servindo como um atestado de arrependimento pra me fazer prestar mais atenção a essas produções originais (como curta e bela "River").

Criada pelo comediante americano e filho de indianos Aziz Ansari, na série temos como protagonista Dev Shah, um ator de meia-idade de ascendência hindu como Aziz e que como nós passa pelo drama nosso de todo dia numa cidade grande, procurando trabalho, se divertindo com os amigos e tendo problemas com o amor - sempre dividindo a paixão pela comida, seja na convívio social ou profissional com o Chef Jeff (Bobby Cannevale) nessa segunda temporada.

Até aí normal, contudo, a forma como ele e seu parceiro na produção (Alan Yang) tratam destes temas é simplesmente a melhor coisa vista na televisão nos últimos anos. Indo da Itália a Nova York, de Fellini em "The Thief" (S02E01) a Woody Allen em "New York, I Love You" (S02E06), a dupla constrói e conta situações à la Seinfield (obra máxima das sitcons) abordando assuntos polêmicos e tão quanto corriqueiros, como aquele "Thanksgiving" "S02E08), que é dedicado quase que integralmente a Denise e seu processo de aceitação sua e da sua família sobre sua condição sexual; ou em "Religion" (S02E03) em que Dev discute crenças com sua família girando em torno a carne de porco.

Aliás, nessa segunda temporada da série, Aziz e Alan em dez episódios percorrem um tema central (o relacionamento de Dev e Francesca, interpretada pela bela e talentosa Alessandra Mastronardi) mas construindo a série na base de esquetes mais isoladas ao contrário da primeira temporada, assim tirando o foco do Dev propriamente pra proporcionar uma maior liberdade ao Aziz. É só observar o que a gente vê em "First Date" (S02E04) sobre da fugacidade dos aplicativos de relacionamento como o Tinder, e em "Le Nozze" (S02E02) que se trata do duro processo de aceitação no amor. Ah como dá vontade de dar um abraço no Arnold. Quer, dizer em todo elenco que enche a série de carisma e só abrilhanta seu roteiro e execução.

E falando de roteiro, qualquer produção é bem sucedida se é aquela em que esse é escrita se aproximando de seu espectador; seja brincando com o fantasioso, com a realidade que ele gostaria de estar ou simplesmente falando sobre a rotina. Precisamos trocar experiências e ver celebrado na tela algo da qual celebramos ou passamos, e "Master of None", de novo, trata o comum de forma primorosa, a romantizando e a melancolizando da forma como deve ser; como no BRILHANTE episódio de quase uma hora "Amarse Un Po" (S02E09) - assim em letras garrafais mesmo.

Inspirada em Seinfield e principalmente em Woody Allen (sendo bem menos neurótico que ele), "Master of None" é simples e carismática, trazendo uma fotografia e atuações merecedoras de um abraço - ah como é bom ver Arnold, Denise e Brian. Todos minorias, todos com seus dramas internos e todos com o desafio de seu processo de aceitação constante que todos nós passamos.

Curiosamente, foi difícil de escrever sobre "Master of None"; pois ela é uma serie sobre o tudo e o nada. Sobre eu e você.

Isso é uma das coisas que pode acontecer daqui a 1 bilhão de anos

Ansiamos por respostas pra explicar o presente, passado e futuro, especialmente o futuro; e quando nos deparamos com algo que aconteceu ou acontece o termo mais usado é "deus quis". Quiromancia, astrologia e milhares de outras "gias" dedicadas a dizerem que há sempre o algo a mais que nos entendemos e não temos nenhum controle, denunciam como gostamos do destino para explicar porque aquilo aconteceu como se a escolha que nós tomamos pra nós fosse inevitável - talvez nessa sociedade moderna algumas são realmente - numa misto de conforto e curiosidade aliviando a nossa culpa.

A futurologia é uma dessas "gias", mas talvez delas a mais embasada ao usar a base científica e estatística para tentar prever uma POSSIBILIDADE sobre que está vindo em direção a nós, não só como mera curiosidade mas talvez como um alerta também. Bom, o aquecimento global não nos deixa mentir e um belo "eu avisei" cabe aí. Então não adianta bancar o sabichão ao tentar questionar se a ciência pode prever o que você irá almoçar amanhã se nem consegue prever o tempo com precisão, já que a palavra mesmo explica tudo isso: previsão.

Viveremos nesse planetinha malfadado por mais uns milhares de anos se nada acontecer graças a nós mesmos, isso é certo, e à la melhores momentos de History Channel o canal do Você Tubo RealLifeLore resolveu especular sobre o nosso futuro daqui a 1 fucking bilhão de anos!

Muito? Sim, tempo para um caralho. Mas é interessante assistir e pensar que algumas coisas realmente fazem sentido se continuarmos nessa toada, de que por exemplo daqui 20 mil anos 99% dos idiomas estarão extintos. Oras, globalização não é isso? 

Uma coisa é certa, cedo ou tarde teremos que procurar outra casa para viver, seja porque nós mesmos acabamos com esse planeta ou porque ele continuará evoluindo em outro caminho.

Acompanhe no vídeo abaixo ativando as legendas no português brasileiro nacional:


Via B9

R.I.P Chris Cornell


Infelizmente de tempos em tempos pipoca a morte de alguém, e entre esses tempos na latrina que é a caixa de comentários de qualquer site de notícias daqui do Brasil pipoca o "convite" para pessoas destilarem seu preconceito, ou porque não conhecem e são incapazes de ficarem quietos ou porque são os representantes da família brasileira e portanto, da moral.

Foi confirmado a causa da morte repentina de Chris Cornell aos 52 anos de idade: suicídio. E não é preciso procurar muito para ler comentários do tipo de drogado e de "falta de deus no coração". Queria saber o que define a pessoa que diz que os outros tem "essa falta de deus". Seria a explicação básica e mais simples? Ou eles buscam demonstrar a superioridade por terem um guia moral que os fazem se julgarem automaticamente corretos, ou isso denuncia a incapacidade de estabelecer essa moral por si mesmo como ser racional que se é? Creio que a verdade é que como seres humanos todos somos falhos e estamos tão vulneráveis a tristeza como a alegria.

Mas tentando sair desse âmbito da religião, é lamentável que as pessoas não tenham o mínimo de empatia e respeito em troca de esteriótipos baratos e lamentáveis que em nada servem para se estabelecer minimamente como opinião.

Chris Cornell se tornou o expoente de uma geração do começo dos anos 90 e a maior voz delas. Indo do grave ao agudo sem dificuldade alguma, pudemos testemunhar isso no Soundgarden e constantemente se renovou. Se antes era a sua música era mais ligada ao heavy metal de um Black Sabbath no Soundgarden, flertou fortemente com o melódico e o pop no Audioslave com os integrantes restantes do Rage Against The Machine e hoje em dia fazia shows apenas com um banquinho e um violão nos apresentando sua voz potente e nada mais com a delícia de um folk; ainda retornando a um Soundgarden que tinha shows agendados e um álbum para vir futuramente e músicas da carreira solo tanto para "Cassino Royale" da série de James Bond quanto para o "Vingadores". 

Um triste fim de um homem talentoso e conhecedor de boa música. E posso falar como alguém que não correrá atrás de sua discografia após a sua evidenciada morte, mas como alguém que conhecia seu trabalho - principalmente do Soundgarden e do saudoso Temple of the Dog, ironicamente formado com Eddie Vedder para homenagear um amigo falecido dele na época.

Antes de qualquer julgamento que as pessoas adoram fazer, é bom que se diga: ninguém é capaz de entender as voltas que temos nas nossas cabeças e as peças que elas nos pregam independentemente do que se tem na vida, aliás tudo na vida pode ser subjetivo.

Sim, essa vida pode ser muito bem feita de aparências, como ele aparentava estar feliz e satisfeito durante seu último show e como confidenciaram pessoas próximas antes de termos esse triste desfecho.

Esse triste acontecimento é mais uma das lições que a vida nos dá sobre como ter empatia. 

Fiquem atentos com a depressão.

Her é aquele filme para MIM e para VOCÊ


Certeza, nove entre dez postagens em páginas românticas no Facebook - independentemente do teor delas - é daquela que trata sobre a nossa sofrência diária do "amor idealizado". Aquele cara ou garota que compreenda o verdadeiro problema das coisas, entenda o valor que nós temos, responda instantaneamente as mensagens do WhatsApp que a gente manda para ontem, seja perfeitamente compreensível com os ciúmes, e tenha os mesmos gostos que nós - isto é, empunhando um sabre de luz se formos tratar do público a qual pertenço.

Entretanto se são as imperfeições que fazer o ser humano ser autêntico e por elas determinamos o que é certo e errado para nós e da forma em que agimos com os outros, isto é, a velha empatia que costumeiramente esquecemos de praticar - e aí voltamos ao ponto das imperfeições. Viu? Eu e você somos nada mais que um círculo vicioso de erros e acertos, consigo e com os outros. Se a perfeição é inalcançável, por quê então devemos idealiza-la?

Essa é uma pergunta que intriga a nós mesmos e parte delas é confrontada e questionada no espetacular longa "Her". Disponível na Netflix desde o começo do mês (acredito eu, me corrijam se eu estiver errado) e dirigido e roteirizado por Spike Lee lida com uma questão atual e permanentemente presente: a solidão.

Agora apoiada na tecnologia, o amor idealizado mais comumente exposto em páginas de livros e letras de músicas, tem na internet agora sua maior voz e sua maior força. Agora acreditamos que nosso grito será ouvido e compreendido - mesmo que gritemos para ninguém no final das contas -, afinal, a tecnologia encurta distâncias e aquele amigo ou interessado crie coragem e disposição para perguntar como você está (e eu admito, já tive essa fase; quem nunca?). Porém, é justamente por essa busca e satisfação do ter o seu desejo atendido que caímos na armadilha de idealizarmos somente o que é perfeito para nós e esquecer não só a própria satisfação com o que é, mas sobretudo em se preocupar na palavra difícil que é conviver.

Num mundo futurista que não diz a data e de uma IA extremamente avançada, o personagem Theodore (magistralmente interpretado por Joaquin Pheonix) é um ser solitário que encontra em uma OS com voz de Scarlett Johansson a solução de seus problemas. Já tratei isso aqui na resenha de "Her" que fiz aqui pro Descafeinado. Mas sintetizando novamente, essa OS - como aquela que em menor grau está nos servindo nos Androids de todos os dias - aprende com Theodore seus gostos e ele se apaixona por Samantha. No entanto como inteligência artificial que é, ela se desenvolve como qualquer outro tipo de inteligência e passa a querer outra realidade. No caso com outras OSs como ela. De forma simples e clara, Theodore procurou atender sua necessidade e não mudou, sua amada aprendeu e o deixou para trás. Artificial ou não, inteligência é inteligência, e a natural arte do ser humano em falhar na empatia e reflexão sobre si mesmo nos leva a pensar na extinção ou na quebra de relacionamento mesmo.

Parece até proposital a escalação da Scarlett Johansson para fazer a voz da Samantha se formos pensar em que ela é o símbolo do imaginário dos nerds que molham as calças quando veem a Viúva Negra na telona. E aí Adam Sandler vem a mente.

Seus filmes ruins são tão incompreensivelmente vistos por serem nada mais que baseados no esteriótipo do "cara fracassado ou azarado que não sabe falar com garotas acabar ficando com aquela garota gostosona do filme", em outras palavras a Scarlett Johansson. Tais são tão vistos por sermos esse cara ou essa garota, são tão vistos por fazerem rir de nós mesmos - mesmo que essa piada seja bem ruim. Adam Sandler e Netflix sabem disso, mesmo que incidentalmente e aí temos a notícia da renovação do contrato do ator com o serviço de streaming por mais quatro filmes. É simplesmente "esfregar" na cara a verdade.

É comum vermos por aí as pessoas praticarem a máxima do "sou assim e ninguém, nem nada vai me mudar". Sim, até concordo que isto é autenticidade no exercer da liberdade de opinião, mas como vemos na polarização política por exemplo, você está mais fadado a ser um idiota do que alguém ponderado. Melhor então ser "acusado de ficar em cima do muro" e parar de esperar que o garota dos meus sonhos seja aquela que empunhe um sabre de luz.

Resenha Série: Sense8 (2ª Temporada)



Sense8 é uma série original da Netflix dirigida, escrita e produzida pelas irmãs Wachowski; portanto, é uma série delas, imaginada por elas e feita para nós, e que talvez por esse controle quase que inexistente em filmes de grande orçamento de Hollywood, ela seja bem sucedida em seu teor de diversidade e de histórias entrelaçadas - coisas que requerem um desenvolvimento e uma liberdade bem maior, complexidade esta que foi experimentada em "Cloud Atlas", um filme que conta seis histórias que se entrelaçam do século XVIII até o futuro pós-apocalíptico.

Mas aí você lembra: "peraí, irmãs Wachowski?". Sim eu sei. Se você se atentou aos créditos de Matrix os dois ERAM os irmãos Andy e Larry Wachowski, mas anos após em 2012 e 2016 respectivamente se assumiram transgêneros. Portanto, esta mistura gráfica ganha tons ainda mais filosóficos e libertários tornando "Sense8" uma série sobretudo de "conexão". Um casamento perfeito de quem quer com quem gosta.

Como praticamente uma série autoral, Sense8 desde sua criação se propõe a tratar sobre a diversidade, passando pela fotografia simplesmente linda das diferentes cores abordadas em diferentes locações do mundo (da alaranjada Nairóbi de Capheus, passando pelo colorido de Lito, até a cinzenta Seul de Sun) até mesmo a diversidade de seus próprios personagens, que se conectam tão bem quanto a série mostra.

É impossível não se ver conquistado pela empatia de cada um, através de seus problemas propostos e pela abordagem do texto das Wachowski conectados com as mazelas do mundo atual. Sim, em vários momentos a didática exagerada sobre estes assuntos realmente pesa tal qual as frases de efeito utilizadas, porém, é disso que o mundo é feito. Sense8 é "feito" para todos, mas as aspas são direcionadas a família brasileira que defende as morais e tenta destruir os valores humanos de quem é humano; então se o mundo é feito de frases de efeito, que seja. Os problemas devem serem simplificados tanto quanto as diferenças realmente devem serem tratadas com indiferença.

Como bem disse Capheus em sua reviravolta até surpreendente: "Nada de bom acontece quando as pessoas se importam mais com as diferenças do que com o que temos em comum". A união faz a força aqui e é realmente legal quando isso acontece.

Bom, a série em seu segundo ano tem um desenvolvimento de história em comum com maior foco do que a primeira temporada teve, o que trouxe a série o potencial de uma ficção científica que andava escondida atrás de seu próprio nome, claro que sem esquecer dos relacionamentos que movem o que a série é. Como de Nomi (Jamie Clayton) com Amanita (Freema Ageyman), Lito (Miguel Angelo Silvestre) com Hernando (Alfonso Herrera) e Daniela (Érendira Ibarra), Will (Brian J. Smith) com Riley (Tupence Middleton) ou Wolfgang (Max Riemelt) com Kala (Tina Desai).

A ideia de empatia mesclado a filosofia que seu nome traz por pessoas em diferentes partes do mundo serem capazes de se conectarem através das sua consciência ou até mesmo "tomarem" seu corpo lhe dando habilidades que você não tem (como a de dirigir que Capheus (Toby Onwumere) proporciona a Sun (Doona Bae) e vice-versa quando este precisou dar uma de Van Damme na primeira temporada), ganha um tom mais científico quando os sensates são introduzidos habilidosamente ao longo da história como uma espécie de humanos escondida, quase que mutantes, e reproduzindo a caçada da organização OPB através de Milton/Sussurros (Terence Mann) que assume uma pele de Hannibal Lecter, tão misterioso quanto calculista (um vilão nota dez que nem sabemos de fato se é vilão mesmo), no mesmo passo de que o Will é aquele que move todos os sensates gerados por Angelica (Daryl Hannah) buscando esse esclarecimento sobre sua criação e a corrupção que se sustenta sempre através das diferenças.

Baseado nisso, a verdade é que "Sense8" continua trilhando exatamente o mesmo caminho da sua primeira temporada não abrindo mão de sua trama "guarda-chuva" e nem da critica ao puritanismo, ao mesmo tempo que as Wachowski nos lembram como elas são imbatíveis na filmagem de cenas de luta e ação. "Sense8" talvez ganhe status com muita gente por não ter pudor algum em diversas cenas mais quentes ao longo das temporadas, mas a série se propõe a ser muito mais que isso numa trama intrincada típica de um sci-fi e "Wachowskiana" para cada um de seus personagens. Trama essa às vezes confusa e desafiadora, mas que se sempre se resolve no final dando uma perspectiva de satisfação para uma terceira temporada.

Links do mês #4


Por que o Bolsa Família é mais polêmico que as pensões militares?

Nesse texto muito bem articulado do jornalista Tim Vickery ele questiona a existência das tais pensões militares comparadas ao famigerado Bolsa Família. 

E sobre isso, antes que os discursos e direita e esquerda se inflamem e que as "bolsas" são simplesmente um meio assistencialista para sustentar vagabundos, creio que acima de toda esperteza que infelizmente é engradecida na boca pequena neste país, há o humano. Então na minha opinião, antes do batido discurso meritocrático há questões muito mais urgentes e realistas; não só em como o paulista poderia se comparar ao morador do sertão do pernambuco, mas tanto como o Bolsa Família, como as pensões militares, tem como função primordial a economia no geral, quer dizer, aquela mesma que ajuda o tal crítico das tais "bolsas".

Não é só uma questão ideológica e igualitária, mas também de sobrevivência.

Atraso, corrupção e trabalho escravo: o horror nos relatos em São Petersburgo para Copa 2018

Não sei se é um alento ler o título dessa notícia, pois creio que sua primeira reação tenha sido: "olha lá, não somos o único país com corrupção" ou "pelo menos aqui tinha só corrupção, não trabalho escravo".

Só que a questão é muito mais séria e envolve questões políticas e até nucleares. Sim, o ditador da melhor Coreia está envolvido nessa brincadeira...

Será que aquilo que os reacionários temem que vá acontecer no “comunismo”, já não acontece no próprio capitalismo?

De certo, o comunismo é um sistema ideológico que em mais de 200 anos não tem dado e dificilmente dará certo, assim como o capitalismo em seus mais de 800 anos que dizem que é o sistema que dá mais certo porque é aquele que atende de forma mais plena o egoísmo humano. 

Mas você tem ideia de que um e outro simplesmente se complementam ao longo da história e que estão em constante mutação - talvez mais rápido que nós tenhamos percebido, já que perdemos tanto o nosso tempo em discussões.

Já se deu conta, por exemplo, de que o fim da liberdade de expressão é um movimento de ordem tanto de coxinhas e mortadelas em seus regimes mais autoritários?


Show de Metal? Blé, vou pular essa notícia. Mas peço pra que leiam, pois esse é mais um relato perturbador da impunidade nacional que vivemos.

Kim Jong-un não é louco nem irracional e é isso que o torna mais perigoso

Sobre isso costumo dizer que os diplomatas são os verdadeiros heróis para que os países não se explodam, já que asseclas como Trump e Putin não pensariam duas vezes antes de explodirem ao mundo ao ver que seu país defendido está ameaçado no jogo de War que convivemos diariamente.

E o menininho mimado da melhor Coreia é muito mais racional do que pensamos, e como o título da matéria diz, é justamente isso o que o torna muito mais perigoso.

A verdade é que não há santos e muito menos defensores da liberdade como Trump, desde a Guerra Fria vemos Rússia e EUA se degladiando através de outras guerras em outros países, e se a Síria é a bola da vez agora, não demorará muito para a Coreia entrar na jogada em uma mostra de poder que a ditadura ferrenha dos Kim quer.

Só filmes de quadrinhos, remakes e continuações fazem dinheiro em Hollywood. Isso é bem bom e bem ruim

É aquela discussão eterna sobre criatividade, entre cinéfilos que se julgam acima do entretenimento e de pessoas hipsters que se julgam... cinéfilas. 

A verdade é que em todo espaço no mundo há espaço pra todo mundo. E se o fato de que entre as grandes bilheterias tem tido só filmes de quadrinhos e remakes fazendo parte, demonstrando que atores famosos estão longe de serem uma aposta em uma grande bilheteria como antes, são justamente esses filmes lixo de histórias genéricas em sua maioria que possibilitam filmes como Manchester á Beira-Mar de existirem. E quem gosta de cinema mesmo, vai tanto em um como no outro.

Conheça o livro que é o marco fundador da ficção distópica e que inspirou Orwell e Huxley

Já ouviu falar em Ievguêni Zamiátin? Não? 

Obrigado, eu também não.

O escritor russo autor do romance distópico "Nós" ainda nos anos 20 não é uma viagem de ácido - reação natural de quem leu qualquer livro de Aldous Huxley -, mas o autor influenciando medalhões como este e George Orwell, é apenas mais uma demonstração do quanto estes romances distópicos são constantemente uma presença marcante em nossas vidas ainda mais conturbadas pelos tempos atuais.

Estou louco pra comprar este livro. Um dia quem sabe, por eu ser um pobre universitário. Então sacomé...

Resenha Filme: Guardiões da Galáxia Vol 2


A missão de James Gunn ao dirigir o segundo filme do "Guardiões da Galáxia" é de automaticamente ser cobrado por superar o primeiro; aliás, a ideia e objetivo pra qualquer coisa que façamos é essa, a busca por de melhorar sempre. Só que a vida não é assim, e pra histórias, creio que muito menos.

Enfim, não é que o Kevin Feige chegou pra ele e disse que ele teria que superar o seu primeiro trabalho - bom, pelo menos eu acho que não - mas o primeiro "Guardiões da Galáxia" foi um sucesso tão estrondoso e ao mesmo tempo tão improvável desses heróis totalmente desconhecidos que o James Gunn já começou com 10 a 0 no placar na dúvida se o segundo filme conseguiria superar o seu predecessor. Não só com seu público, mas com a própria Marvel.

E essa falta de obrigação de "ter-que-fazer-um-filme-pra-ligar-com-todo-o-resto-de-um-universo-em-que-se-você-não-se-enquadra-você-está-na-rua" é justamente o que faz tanto o primeiro como o segundo filme serem dignos de discussão quase unânime de que eles estão no top 3 de todos o Universo cinematográfico que a Marvel criou, ao contrário de filmes como Thor, Homem-Formiga e Doutor Estranho que convenhamos, apesar de serem legais, de família, tem uma função mais que prioritária (se é que existe) de servir como "cola" nesse universo,

Tudo começa mais ou menos naquilo que o primeiro filme tomou como base e nele começamos com eles combatendo mais um inimigo cósmico contratado por Ayesha, líder da raça soberana, com o intuito de proteger valiosas baterias cósmicas. Mais um dia e mais uma batalha ganha. Mas só que a merda é que como um guaxinim safado (não o chamem de guaxinim) Rocket Racoon (voz de Bradley Cooper) resolve simplesmente passar a mão grande em algumas dessas baterias e Ayesha descobre e manda os Soberanos com tudo atrás deles. E na iminente destruição de nossos heróis, eis que eles são salvos por uma figura misteriosa. Sim, um carinha bem pequenininho em cima de uma nave.

Lembra que Peter Quill (Chris Pratt) era alguém que queria descobrir quem era seu pai mas fingia que não dava muito a mínima pra isso? Pois então, o lance é que ninguém na sua situação dá de ombros, logo, naturalmente ele sempre quis descobrir quem era o velho.

Se o primeiro filme focava na construção da equipe, essa sequência se foca naquela matinê deliciosa que presenciamos mas também na bidimensionalidade de seus personagens, principalmente de Peter, nosso herói, e de Drax (Dave Bautista) que ROUBA a cena a cada vez que aparece.

Ah sim, tem os inúmeros pós-creditos e a melhor participação especial de Stan Lee.

Ah sim, tem os efeitos especiais excelentes e Sylvester Stallone (Starhawk).

Ah sim, tem o elenco afinadíssimo, história e visual que ensina a DC como fazer um filme.

Ah sim, ele é engraçado para um caralho e tem aquela trilha sonora que, apesar de não ter uma "Hooked a Feeling" é plenamente capaz de falar sozinha como se um tivesse feito um para o outro..

Mas "Guardiões da Galáxia Vol 2" é muito mais que um filme de ação, é um filme sobre relacionamentos e família, para a família.

É um filme de Ego (Kurt Russell canastrão que só) que é como seu próprio nome diz, de Peter e Yondu (Michael Rooker) que descobrem o verdadeiro significado de paternidade, é um filme de Gamora (Zoe Saldana) e Nebulosa (Karen Gillan) que apesar das diferenças acabam se unindo, de Drax e Mantis (Pom Dramantleff) que nos seus sentimentos acabam se unindo pela estranheza, de Rocket Racoon com todos os outros aprendendo o que é uma família e de Groot (voz de Vin Diesel), agora baby, sendo espetacularmente fofo e um barato.

Aliás, seu boneco venderá horrores e ele já é falado por aí, ele é "da hora". Só que o grande mérito (de novo) de James Gunn é fugir da famigerada fórmula Marvel de "filmes para a família" e entregar uma diversão descompromissada que diria foca na space opera que conhecemos de Star Wars.

Aquela que mexe com o nosso imaginário e nosso coração.