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Resenha Série: Alias Grace

sexta-feira, fevereiro 02, 2018


O ano de 2017 foram de dois escritores: Stephen King e sobretudo Margaret Atwood.

A maior escritora canadense que você não conhecia, teve na adaptação do "Conto da Aia" pela Hulu o reconhecimento mundial definitivo e merecido por uma história que encontra-se com o presente ao enxergar o futuro e o passado da mesma forma. E se "The Handmaid's Tale" segue esse caminho mais distópico, em outro livro chamado "Alias Grace", Margarete resolve voltar quase 200 anos na história para reavaliarmos o presente; demonstrando que, infelizmente, a história tende a ser cíclica tornando Alias e Handmaid's praticamente uma só.

A história real de Grace Marks (Sarah Gadon) realmente tem muito a dizer. Imigrante irlandesa de uma família formada por um pai alcoólatra abusador e uma mãe que morrera durante a viagem, a jovem de apenas de 16 anos tinha apenas um destino traçado.

Pulando de casa em casa, Grace chega à casa do fazendeiro Thomas Kinnear (Paul Gross) após um convite da governanta Nancy Montgomery (Anna Paquin). Juntamente ao jovem James McDermott (Kerr Logan), também empregado da casa, assassina os dois a queima-roupa, rouba os pertences de valor, e foge com ele para os Estados Unidos. A imprensa dizia que eles eram amantes, mas não há a certeza

O dia do crime era 30 de julho de 1843, e os dois pegos pela justiça Canadense são condenados à morte em julgamento, porém, só o McDermott é enforcado e em revisão a garota foi sentenciada à prisão perpétua. Mas por quê?

Tanto o livro como a série exibida pela Netflix não respondem especificamente a essa pergunta, ou se ela matou ou não matou. Os impecáveis 6 episódios de "Alias Grace" te obrigam a ver muito além.

Voltando ainda mais no tempo, mais precisamente na Grécia Antiga, os sofistas eram professores itinerantes considerados os mestres da retórica e oratória, pois acreditavam que a verdade é múltipla, relativa e mutável por a natureza da alma ser passiva, modelada pelos conhecimentos vindos do exterior. Portanto, se as pessoas possuem almas passivas, logo elas podem ser convencidas por qualquer discurso proferido de forma encantadora, e a missão dos sofistas era justamente lapidar essa técnica afim de focar na questão prática da necessidade e de uma vida melhor para todos.

Sendo advogada de si mesma, Grace se pôs diante ao tribunal e em um discurso que se através de seus olhos era distante, em seu tom de voz empregado era amável adquirindo justamente nos preceitos de "mulher ideal" da época: "virtuosa, casta, subserviente, modesta, bela e respeitável" - o "bela, recatada e do lar" de hoje em dia. Se retratando como vitima das maquinações de McDermott, assim ela dobrou a justiça usando do próprio sistema patriarcal da época que via-se no dever de proteger as mulheres e precisavam ser vistos assim pela sociedade.

Mas aqui não está em discussão o fato. Na verdade, a mistura de ficção e realidade empregada por Margaret Atwood em seu romance tem como missão - até porque as circunstâncias dos assassinatos são desconhecidas até hoje - levantar mais perguntas do que respostas, mostrando como o que existia ao seu redor se imprimia em Grace.


Sensível e incômoda, com um figurino e fotografia impecáveis, "Alias Grace" conta com um texto brilhante adaptado por Sarah Polley que nos pega pela mão em seus enxutos 6 episódios, levando-nos em uma viagem pela mente convincente de Grace, mas também nos provocando a todo momento.

Nesse jogo nada confiável que habilmente contrapõem através dos personagens o ceticismo e crença a todo momento, no ar bucólico da era vitoriana no Canadá do século XIX, Grace é sobretudo uma personagem que foi obrigada a render-se a padrões estabelecidos numa prisão que em punição pelo assassinato torna-se irrelevante para ela, pois é também vivida em vida. Um paralelo interessante, pois é justamente o crime o menos relevante aqui.

Cada gesto, cada respiração, cada olhar conta; é assim que Grace literalmente costura sua história para o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft). Contratado pelo Reverendo Verrenger (David Cronenberg) para avaliar a instabilidade emocional da acusada e possivelmente inocenta-la, na tentativa de "remendar" os buracos na mente da garota que na verdade são misturados por realidade e ficção pela própria Grace, ao colocar sua amiga Mary Whitney (Rebecca Liddiard) na história dela mesma.

Consequentemente nos fazendo compreender o significado do "alias", o pseudônimo adotado por Grace após o crime representa a sua libertação. "Homenageando" aquela que Grace admirava por ser sua completa antítese e desejo, Grace viu em Mary o fim que a aguardava em algum momento, pois Mary apesar de tudo era também fadada a aquela vida como ela, definhando aos poucos em um trabalho que provocava olheiras culminando num aborto que a mataria.

Então, ao contrário do que possa parecer, a fragilidade utilizada por Grace Marks para ludibriar o sistema judiciário não é somente um jogo de aparências, mas sim uma consequência indireta do protecionismo e abuso exacerbado, que acabava incapacitando até testemunhas na época de acreditarem no fato de que ela poderia sim ser uma potencial cúmplice. Essa é a verdadeira prisão, não ser capaz de nada. Uma prisão constante e real revelada pela sua história, sendo somente verdadeiro os olhares e opiniões alheias que ou a viam com desdém ou como um objeto de interesse acima de tudo.

"Alias Grace" é uma série que nos glorifica muito mais pela jornada do que em seu final. Aborto, assédio, luta de classes, discriminação... Abordando assuntos substanciais com uma sutileza e crueldade quase absurdas, Grace no fim utiliza-se de "um sofismo" com ela mesma para sobreviver por uma escolha. Temas citados que parecem tão atuais quanto nunca, mas numa história escrita nos anos 70. reafirmando o que o seu professor de História dizia: nós andamos em círculos.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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